Das cartas de junho

Como é que se escreve uma carta depois de tanta ausência? É preciso dizer, confessar o meu engano. Começo a entender a situação. A vida que planejei – sonhei -, planos, expectativas -, essa vida se apaga entorpecida. Não posso voltar ao ponto zero. Como explicar? O futuro como uma cidade nunca visitada. Uma cidade do outro canto do país. Viajei de um lado para outro, com todos os pertences empacotados, chegando tantas vezes, e não encontrando… O percurso marcado claramente no mapa, mas quando chego, dou-me conta que o lugar não é aquele, não mais, ou nunca foi. A cidade que procuro desapareceu – talvez nunca houvesse existido. Uma sensação de ruptura. Numa vida, havia uma cidade para a qual viajava. Em outra, se tratava apenas de um lugar que havia inventado. Desta incerteza, ou desta obviedade o meu terror! Não vou conseguir chegar, e já não tenho mais forças para recomeçar. Buscar o que nunca existiu? Voltar para casa. Acertar o tempo de ficar, de permanência sem espiar, sem sonhar, sem querer avançar. E avançar justo para o lado que não tem estrada, nem cidade, nem nada. Interromper a esquizofrenia da invenção. Da poeira. Dos embates, quixotadas. Este descalabro por estar lá, ficar, ser reconhecida. Nunca deveria ter ido, nem tentado! Não existe pode ser entre as pessoas, não existe voz… Há qualquer coisa de mágico no saber ficar, entender que mesmo pela janela, o outro lado da sua rua é a referência perfeita. Se existe âncora, se existe paz, não está nas cidades visitadas, no caminho percorrido. Não se trata de prisão, mas certeza. E sequer de contar para o outro, ninguém ouve. Palavras são moedas. Desconheço numismática. Estou equivocada. A saída? Escrever para você.

Acabei de reler os dez capítulos da tese: Um só Pintor, tantos olhares! Recolhi velhos cadernos de francês, folhei livros separados em pilhas, por assunto, ideia sua. Sentei no sol do meu tapete, mas não compreendi nada sobre o lugar para onde voltei. Estou perdida, meu amigo.

Albertina Martins Cardozo

Portão Azul, 19 de junho de 2014

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