Imperfeito Dia

Meu amigo:

Segue cinzento. Desfiz as malas depois de viagem inteira sacolejando nas voltas da angústia. Gavetas abertas, duas portas do armário escancaradas, e as roupas na mala. Escolhi chá, como tu sabes, evito café preto. Protejo as noites da vigília. Sentei naquela cadeira perto da janela olhando sombras. “Quem é que conhece as verdadeiras razões dos seus temores? ” Voltei a repetir em voz alta a frase. O suor no inverno, o fogo no corpo, e esta respiração ofegante acusa medo. Fico imóvel, espero que passe. Não sabemos de onde chega, mas sentimos. Se olhares o desenho das nuvens, também tu, meu amigo, vais estremecer. Encobre esperança, esconde o riso, silencia o piano. Faço um esforço para abrir os olhos. Medo. Temor, insegurança. Esbofeteada no meio da calçada, surrada, espremida na voz ríspida da notícia que se espalha. E a cada empurrão, duas, três horas para recompor o ânimo. Estes esbarrões, estes gritos, nomes indizíveis flagelam. O cheiro da maconha, do álcool, deste desmedido alienamento assusta. Já nem sei se quero encontrar razões para temores. Acostuma a covardia. Ingenuidade, credibilidade, palavra nem importa. Agressão nos envelhece num átimo. Estou covarde.  Da viagem posso te contar que as feras na África oferecem menos perigo do que as nossas esquinas.

Nota:

Imperfeito dia! As propagandas, e as ‘figurinhas’ das revistas estavam repetitivas… Desanimador o jogo!

 

Portão Azul, ainda 19 de junho de 2014.

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