Vala Seca

Meu amigo:
Vencer a doença, ultrapassar a barreira. Dar o passo necessário para receber outra dádiva. Abrir a porta, e debruçar-me em tua direção. Confesso sofrimento. Dor no corpo, principalmente, membros. Também as costelas apertam, como se usasse espartilho reajustado, a cada meia hora. Depois, respiro, vingada.
Li a carta com redobrada atenção: conviver intimamente com tal arrogância! Insuportável. No entanto, a sobrevivência do ser humano transita por necessidades, aparentemente, exacerbadas. Exponho estas questões em devidas proporções. Transitar, verbo coloquial, absorvido por um contingente de jovens descolados. Pois é, meu amigo, estamos todos deslocados do real, ou desfocados. Readaptar sentimentos, impossível. Espelho, arestas se transformam em acessórios importantes. A vaidade nunca é excessiva, mas alavanca. Sobrevivência meio a concorrência. Alimento importante, robustez. Não existe excesso… não se mede, nem compara… A cada pessoa o particular, eis a diferença. O que parece excesso é vitória. O módico, o ajustável, impreterivelmente, atrás do sucesso. Orgulho segunda-pele, proteção contra julgamentos. Flutuar na vaidade da própria beleza, da própria competência é um estado isolado de poder. Realização. Ser acariciado, festejado, sabatinado por qualidades inerentes e obvias, prazer. Cuidado diário com o corpo, a roupa-fantasia adequada a cada espetáculo, valoriza quem assiste, quem participa. Competência! Vaidade armadura, defesa, imposição interna. O sucesso exige. Segue solto e frouxo pelo caminho de realizações. Não te preocupes com a medida, horas desperdício, preparativos! Tempo é medida parcial. A produtividade se ajusta ao tempo. E tua convivência com ela, lentamente, será moldada, e serás contaminado. Neste momento, meu amigo, ou te dissolves no amor, ou abandonas a mulher.
Amanhã pegarei o ônibus, e certamente, estarei no aeroporto às quinze horas. Mudar de ares, acertar o relógio com outra temperatura. A montanha me fará bem. Escreverei tão logo esteja instalado no hotel, acima de qualquer preocupação. Espero que consigas convencê-la a tirar férias deste intenso, não excessivo, sucesso! Ficaríamos bem, os três. Dez dias de alegria na inteligência e na beleza.
Tuas cartas alimentam prazer, desejo. Aplacam a dor. A cada palavra meu corpo responde. Presença indispensável, a tua. Albertina
Vala Seca, 20 de outubro de 2014.

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