Da ausência

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Da ausência. Da pedra principal deste jogo, a substituição: cerejas, copo de vinho, beijo ao acaso… Válido até um determinado momento, mas incompleto. Não altera o absolutamente correto. Na vida não existe regra. O corpo cansa, desmedidamente, ao peso emocional. Exercício físico repousa. Maternidade energiza. A pedra da ausência nos afoga.
Se a criança é solicitada, cresce rápido, fácil. Adapta-se ao meio, ao silêncio, sobrevive. Amadurece. Teorias se invertem, pensar é assim flexível, orientar, dizer, pode ser contraditório. A fala, ela mesma, se esvazia… repetitiva, volteia, retorna, se reinventa estranha, ou sem sentido. Constante alerta. Descarta-se dependência.
Estar na calçada, nos quintais, significa liberdade. Nascer, crescer. Infância sem violência, mesmo com carências, ou nos excessos ilumina qualquer história.
Volto ao quintal, aos dois jacarandás, ao gramado. Vozes estridentes. Joaquina, Maria. Aventais a se movimentar. Trazer, levar bandejas. Polir pratas, escovar. Casa cheia.
Pai, mãe, irmãs, tios, amigos. E se demoravam à mesa. Os agregados bocejam, ou saem às pressas. Passam a mão na minha cabeça. Do excesso de algazarra, liberdade vigiada. Um par de olhos, uma reprimenda. O comando sem presença impositiva, presença velada.
Sinto falta, não lembro, reprimo, ou é fantasia. Quero a mãe vestindo, alimentando, alertando. Puxando pela mão, brincando, ou lendo em voz alta. Afazer delegado. Tia, avó, qualquer um, ou todos. Não ela.
Um pai gentil. Se demora no cuidado com as filhas. Leva para escola. Carrega as compras, amarra os cadarços do sapato, busca o casaco. Envelopa as cobertas, fiscaliza o sono. Fecha a janela. Espia.

Esta ausência se prolongou, estranhamente, com a morte da amiga, dos amigos do casal. Lygia desapareceu no famoso acidente aéreo do Morro do Chapéu, e Anita ainda estava em Paris. Eu tinha quatro anos. Não sei se Freud explica. Deve explicar, ficou a lacuna. Corríamos, Magda e eu, de uma calçada para outra. As casas parecidas, uma em frente da outra. A deles maior, vistosa, com escadas, quarto de bonecas, sacadas. Misteriosa. E, completamente nossa. Infância povoada. Pessoas. Muita fala. Muitos livros. Muitos tapetes. Ordem. Limpeza. E ausência. As irmãs maiores iam e vinham, aula de balé, equitação. E vestidos.

Fotos do trabalho de Duda Apolônio

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