Chove tanto, expliquei

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Lembro-me do fogão a lenha aceso, polido. Dos estofados novos. Também do brilho nos cobre. As sopeiras ordenadas. Festividade constante: estado de espírito. A casa acontecia todos os dias…  A cada tempo um tempo. Jardim renovado, árvores crescidas. Cães estabanados. Diferente. Carolina, muito depois, habitar. Criar alma.  Hoje é diferente. O tempo que parecia preguiçoso, grande ficou atormentado, atabalhoado. Espremido. Novos tentáculos. Sabe o que imagino? A vida deve ser feita de pequenos e grandes inventários. Doações, lavações, e escovações… Eu, por exemplo, fico querendo arrumar e arrumar outra vez, arrumar repetidas vezes o mesmo armário. E os livros? Empilho. Revejo. Separo para me desfazer destas pilhas, colocar outra seleção naquela estante. E quase não tenho tempo para ler, espiar, acariciar. Foge o dia. Depois, estaciono na poeira, nos odores. Enquanto outro lado da imaginação deseja uma sala completamente branca. Móveis brancos, espaço. Casas italianas, mediterrâneas? Sem tapetes. Sol e calor. Tudo isso porque está cinzento, chove tanto, e sinto uma friagem entrando no corpo…

Hoje ela me fez uma visita. Contou da primeira edição da novela Viagem pela Alma. O livro experimento…

– Sem plano, um dia depois do outro… Criou corpo, identidade. Explicou. Se aos pedaços é como escrevo, pode ser experimentação. Mesmo assim, ainda sinto uma brutal solidão.

E ficamos silenciosas. Na diferença, o inferno. No silêncio a paz. Enlouquecemos, ou nos deixamos ficar na superficialidade da relação.  No afeto morno.

Enchi a minha xícara com chá. Voltei ao livro que estava lendo.

Então, ele lamentava não ter aprendido a arte de pensar, começando por dobrar o segundo e o terceiro dedos a fim de colocar o indicador sobre o sujeito e o dedo mínimo sobre o verbo, como seu professor de latim ensinava, e lamentava não ver sentido na babel de dúvidas, desejos imaginações e temores que lhe doíam na cabeça. E com menos força e coragem, ele também teria abandonado para sempre a possibilidade de vir, a saber, que tipo de ser ele era como iria viver, e viveria vencido, às cegas, num mundo louco, em meio a estranhos.”

Becket, Samuel. Malone Morre. São Paulo. Códex.F-QM Editores Associados Ltda. P.26.

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