Assustados demais

Pelo fio suspenso no equilíbrio precário movido pelo medo vivemos um dia após o outro. Escrever pode ser o arrepio da espinha como Agatha Christie descreve neste livro de memórias. Sem incluir o lobo Chapeuzinho Vermelho seria mesmo interessante? Sem maledicência, sem crime, sem responsabilidade, sem escrúpulos, sem ganância, sem poder manipulador seria o jornalismo acatado? (São mesmo perguntas?) Ouvintes, leitores, telespectadores abastecem o sanguinolento? Ou é mesmo terror, suspense.
Não tenho apenas a sensação de medo. Sinto medo. Sem metáfora … Estamos assustados demais, não é mesmo?

“[…] bastava ainda que Madge fizesse sua voz de irmã mais velha para que eu, imediatamente, sentisse um arrepio ao longo da espinha.
Por que gostava tanto da sensação do medo? Qual será a necessidade instintiva que se satisfaz pelo terror? Por que motivo, na verdade, as crianças gostam de histórias a respeito e ursos, lobos e bruxas? Será que habita em nós algo que se rebela contra uma vida com excessiva segurança? Será que é necessária à vida humana a sensação do perigo? Será que se pode atribuir o atual incremento da delinquência juvenil ao fato de existir segurança demais? Necessitamos instintivamente de algo a combater, a superar, como se fosse uma prova que quiséssemos dar a nós próprios? Se tirássemos o lobo do conto do chapeuzinho Vermelho, alguma criança gostaria dessa história? Contudo, como acontece com a maior parte das coisas da vida, apreciamos ficar assustados – mas não demais…” (p.55)
Autobiografia, Agatha Christie

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