Sem pensar, deixar correr

1.

Desde que desmanchei o quarto do trabalho, nunca mais achei, ou me debrucei na  boa mesa boa, a certa…Sinto falta do Antônio, daquele socorro rabugento, mas amoroso, presente. Dá o abraço, esquece o chocolate… Dorme porque é inverno.

A perda responde à ansiedade. Será que posso ter carregado o passado? Lista, diz, pergunta. Outras coisas apenas somem do olhar… Comprar?Travesseiros. Perfume.

Lembro-me do fogão a lenha acesa, polido. Dos cobres. As sopeiras ordenadas. Festividade. Sempre para acontecer. A cada tempo um tempo. Jardim renovado. Cães estabanados. Diferente. Depois vem a coisa de habitar. Assim, minha filha, o tempo que parecia preguiçoso, grande, fica atormentado, atabalhoado. Espremido. E o amor com tentáculos, aperta. Sabes o que me ocorre? A vida como pequenos e grandes inventários. Doações, lavações, e escovações. Arrumar e arrumar armários. Redistribuir. Doar.  Os livros livros empilho. Revejo. Acaricio. É preciso  limpar.

Imagino a casa branca, móveis brancos, espaço. Sem tapetes apenas sol e calor. Quadros como janelas… Esta coisa de lembrar, e de dizer importa.

Estou atrapalhada. Não gosto do entardecer. Gostava quando morei contigo. Jardim iluminado. Cadeiras na varanda. Mar verde. Da tua casa se escuta o entardecer… E gosto de venezianas abertas. Conversas amolecidas, sem urgência. O tempo pode ser meteórico. Arrumar faz parte desta visitação ao passado. Limpar. Listar. Ordenar. Vou usar o ponto final. Desmarquei a manicure. Fiz a sopa, Tomei café.

Escuto o gotejar. Chuva ininterrupta. Encontros apressados, atravessados de lapsos. Outro café, um pedaço de bolo. Queremos  a vida como era, ou como deveria ser, não como é…

2.

Escrevo mentalmente todos os dias. Ou pelo menos ajusto a conversa no papel. Na tua casa falo, ou melhor, atropelo teus ouvidos. Liberada.  Avolumam-se queixas. O prazer. Estou no lugar certo. E vou ficando até me dar conta que estás quase fechando os olhos… O jantar que fizeste foi tão bom! Mas não parei de falar, nem um minuto.  Desculpa. Falo demais, rápido, engatando um assunto no outro como se mais que amiga fosses o anjo, o mestre, o médico, ou sei lá quanta coisa ao mesmo tempo. Abuso. Pessoa forte, vigorosa que és me instigas a pensar e processar, e revidar. Confio.  Cutuco. Mas escuto o que me dizes também. Gostei quando me perguntaste, tão diretamente, por que não expunha o sentimento de desconforto para a irmã. Ainda penso nisso embora tenha te dado uma explicação na hora. Não entenderia. Não mudaria nada. Talvez, apenas gerasse mal estar. Não encontrei outra resposta. Esquisito isso. Depois de certo tempo não importa mais o que dizemos dos velhos e sólidos sentimentos, soa falso. Explicações podem confundir. Ou romper o elo. Conversas importantes, fustigantes, doloridas! Necessárias? Não sei. Estas esquisitices que só a terapia explica, se é que explica. Tempo aberto, infinito, e já sem voz concluiríamos que não é o discurso que importa, mas estarmos um diante do outro. Escreve. Gosto da tua tenacidade.

3 comentários sobre “Sem pensar, deixar correr

  1. gostei qdo falas em “atropelo,falo sem parar ” ,me vi um pouco assim ,é como se as vezes fosse acabar o tempo …,o meu tempo??,e aí ,eu que normalmente sou calada ,fico surpresa comigo …,como sempre teu texto me faz pensar !!!! belo e com nuances e paisagens conhecidas .

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