Questão africana

[…]”ler não é uma recreação tipicamente africana. Música sim, dançar, sim; comer, sim; conversar, sim; – muita conversa. Mas ler, não, principalmente, não a leitura de grossos romances. Ler sempre nos pareceu, a nós, africanos, um negócio estranhamente solitário. Nos deixa inquietos. Quando nós africanos, visitamos grandes cidades europeias, como Paris e Londres, notamos como as pessoas nos trens tiram livros das bolsas, dos bolsos, e se isolam em mundos solitários. Cada vez que um livro aparece é como uma placa levantada. Me deixe em paz, estou lendo, diz a placa. O que estou lendo é mais interessante do que você poderia ser. 

Bem, nós somos assim na África.  Não gostamos de nos isolar dos outros e nos retirar para mundos privados. Nem estamos acostumados que nossos vizinhos se retirem para mundos privados. A África é um continente onde as pessoas participam. Ler um livro sozinho não é participar. É como comer sozinho ou falar sozinho. Não é o nosso jeito. Achamos isso meio louco.”(p.47-48) 

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee. Companhia das Letras, 2004. São Paulo.

Elizabeth Costello é a biografia de uma mulher mãe, irmã, amante, escritora. Ocupa um espaço entre a ficção e o ensaio.  J. M. Coetzee  desenvolve profunda e perturbadora meditação sobre a natureza do romance.

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