Albertina desaparecida

Esquizofrênicas as tuas cartas, ou o conjunto delas. Em qual delas posso confiar? Na mulher que me ama e me induz ao amor, ou na outra que me ordena que me afaste porque ela própria já me antecipa que resolveu estar distante?

Ontem recebi tua enxurrada de cartas. Li cada uma delas. E por ordem cronológica, a partir do selo do envelope. O problema é saber com qual das cartas fico, a qual respondo? Agitei-me, no início, com as duas primeiras cartas, quando me propões, ou sugeres arrumar a mala, deixar tudo, e viver contigo. Aí, algures, alhures. No meu remoto e ignoto inconsciente, me vi chegando a Minas Gerais, logo Vala Seca, malas na mão, e tu me recebendo com o sorriso que te faz melhor que tu, o que és, e que é muito. Li essas cartas-convite sentado junto ao bureau. Quando, em seguida, tocou a vez de outra carta. Mudei de lugar. Fui direto ler na cama, onde ainda permanece teu cheiro, nosso cheiro, mas no fundo só o teu perfume.  Li a carta do rompimento deitado para que o golpe fosse menor. Em poucos minutos,  passei da euforia de sermos definitivamente um do outro, a depressão de não mais te ter, não mais te ver, jamais voltar a te sentir. Esquizofrênico amor o nosso. Elizabeth M.B. Mattos – 2015 – Torres

Sem dúvida, do mesmo modo que, tempos atrás, eu dissera a Albertina: ‘Não a amo’, para que ela me amasse, ‘Esqueço as pessoas quando não as vejo’ para que ela me visse muitas vezes. ‘Resolvi deixá-la’, para prevenir qualquer ideia de separação – agora era por querer absolutamente que ela voltasse dentro de oito dias que lhe escrevia: ‘Adeus para sempre’, porque desejava revê-la que lhe escrevia: ‘Acho perigoso tornar a vê-la’, porque viver longe dela me parecia pior que a morte que lhe escrevia: ‘Você tinha razão, juntos seríamos infelizes’. Ao escrever-lhe esta carta fingida […]”. 

Albertina desaparecida, a versão de A fugitiva alterada pelo próprio Proust. Inédita até 1986. (p. 54) Editora Nova Fronteira, 1989. Rio de Janeiro

“‘Que conhecia eu de Albertina? um ou dois perfis contra o mar… Amamos em função de um sorriso, um olhar, um par de ombros. É o quanto basta; depois nas longas horas de esperança ou de tristeza, fabricamos uma pessoa, compomos um personagem ...’  Nosso sentimento pode ter se tornado muito forte porque o nutrimos de angústias e hipóteses, mas está construído sob alicerces muito frágeis para aguentar o peso do edifício. Além disso, a pessoa que amamos, como todas as outras, é incognoscível, de forma que, mesmo se a conhecêssemos mais, não  a conheceríamos de todo. Após anos de vida em comum, que sabemos, que conhecemos de quem nos acompanha? Algumas frases, alguns gestos, alguns hábitos. Mas os pensamentos secretos que constituem sua essência permanecem – nos, por definição, inacessíveis, enquanto seus pensamentos são deformados pela linguagem, pela vontade de agradar, pela incapacidade de se explicar em que quase todos estamos. ‘a gente sempre se decepciona,’diz Proust, ‘com o pouco que há de uma pessoa real nas suas cartas.’ Podem ser cartas brilhantes, carinhosas, comoventes, mas é raro que exprimam toda a natureza de alguém.”(p. 176) Em busca de Marcel Proust,- André Mourois Editora Siciliano, 1995. São Paulo.

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