Personagem noutra vida

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Equívocos. Sem o beijo. (A última chance, o último socorro. Esticar o braço, tocar na mão! Assim mesmo tímidos e estranhados.) Como aconteceu este encontro? Justo o que não podia ser… O definitivo, completo. Ainda brincas. Fazes graça. Encolho, encabulo. A vida deveria ter sido mais justa com o amor. Culpa: penso. Se eu não tivesse interferido, se tu amasses, ou ousasses. Não sei. A última brincadeira do diabo. Fui ingênua. Vais me dizer, sempre. Nunca vieste ao meu encontro, te esquivaste. Depois de setenta anos a explicação não faz sentido.  Claro, estou insistindo. Ver nos meus olhos, entender os teus. Caminho bloqueado.

Se a vida me devolve o homem, ficarei aturdida. Não existo. Sombra, pura imaginação.  Eu me deixei derreter, desbotar, murchar. O que fazes agora? Audácia. O brinquedo. Quanto mais poderoso és, maior o meu medo.

Tenho o tamanho certo para teus braços. E tu o abraço perfeito. Na minha imaginação, mãos dadas. Sem equívoco, ao contrário. Certezas. Assim eu te vejo. Inserido na vida como ela deve ser, perfeita.

O trabalho. Nova, e já inteira, a família caiu como presente: fitas coloridas, pacote com flores. Consolo. És o meu personagem, outra vida. Beijos não resolveriam. Posso chorar. Levantei um muro entre nós dois quando falei francês naquela noite italiana. Aflita. E dizer que nunca nos beijamos! Deve existir outra oportunidade respirando para a entrega. Que venhas ao meu encontro. Perdas não se explicam. O sentimento de abandono sacode nossos aniversários. Nunca amei como se deve amar! Procurei azul, verde, amarelo. Nunca o amor. Por que te escrevo?  Porque não quero morrer sem te beijar. Milhões de vezes, próximos, e intocáveis! O olhar tira minha blusa, ou deseja. Desejada, desejei.  Fulminada, diminui. E teu olhar se desviou. Reagimos, como se o passado fosse uma brincadeira, a favorita. Incerteza. Não do sentimento. Sempre te amei. Risadas, pequenas aventuras. O sentimento fraterno. O amante. O segredo sensual. O herói, personagem preferido sem livros, sem máquina de escrever, nas rodas dos automóveis, ao vento. O homem que não toca piano, mas enche a sala de risadas.  Povoada meninice, adolescência. Ainda no colégio, através da cerca, a brejeirice. E não nos beijamos. Ser um do outro, sem tocar.

Depois de tantos equívocos, magoa. Se nos tivéssemos revelado como menino, menina. Jovem, mulher, e homem, teríamos acertado?  Ou errado. Não importa. Nunca amei mesmo por inteiro. Será que seria festa estar nua aos teus olhos? Ser possuída? Sacudida por prazer ou desespero. Saberia.

Se existe outra vida, resolvo a confusão.  Alguém, um fantasma, outra mulher, outro homem. Qualquer equívoco.

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2 comentários sobre “Personagem noutra vida

  1. Beth tudo lindo, amor jovem sem comprensao da dimensão vivida no momento.
    Medos, freios e dificuldades de duas pessoas confusas e sem ação no momento especial.
    fica a imaginação……profunda de algo que passou e deixou marcas como toda paixão.
    Volto a dizer que tu pode mais , escreves lindamente .
    Como digo , são poucas as pessoas interessantes e profundas!
    Ele deve se sentir muito feliz em ler este teu texto !
    Eu da minha parte fico pensando que tudo poderia ser melhor curtido e aproveitadado , pelos dois!
    Paciência, o que não nos mata nos fortalece!
    Devemos ter o cuidado de aprender nas dificuldades que passamos….. As Vitorias pouco ensinam !bj

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