Talvez respondas

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Adoro as cartas porque são registros, e são urgentes. Preciso dizer isso ou aquilo. Ou que te penso. Que estou surda, mas vi o teu chamado. Apenas não respondi.  Assim mesmo quero dizer que amo aquele jardim, aquela casa, aquela dobra de saudade. Outras coisas nos movem, a cada momento, importantes, relevantes. E a cabeça deixa de pensar, de escutar. A carta espera para ser lida, relida. Não importa a resposta. Já passou. Hoje tudo que demora a ser resolvido, passa. E as crianças crescem. Eu envelheço. Algumas conversas ficam irremediavelmente esquecidas.  Mas as cartas voltam. Tu voltas. Outras velhas lembranças, adiadas ficam penduradas no varal. Secam. Ninguém se lembra de recolher. Dobrar, guardar… E eu te conto que gostaria de ter escutado. Queria ter ouvido a história do meu pai, da minha irmã. Daquela senhora que chorou no ônibus, daquela que segurou minha mão na volta de Paris. Ou fui eu que tentei acalentar, interromper os soluços. Queria estar contigo agora.

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Afinal, confesso que gosto das cartas que ainda não pude ler, e das que escrevi, mas não chegaram. Estou sempre inquieta atrás de um interlocutor. Gosto de conversas interrompidas. De repente, voltam, seguem o destino. Vivas. Gosto das coisas desarrumadas porque tenho que organizar, e fazer, arrumar. E me ocupo com esta, ou com aquela gaveta. Não tem fim esta desordem, nem esta ordem. Gosto do nublado deste dia. Espero a chuva. O frescor. Gosto de esquecer porque quando lembro parece novo. E até deste envelhecer que me agita, acabo gostando porque me sinto, afinal, corajosa. Talvez faça tudo  que  ainda quero fazer. Atravesse o mar, e vá pra África. Colherei aquelas margaridas… Darei conselhos. Ficarei muitas horas no silêncio. Esquecerei… Talvez recomece tudo outra vez porque ainda é tempo de ver o céu de Paty do Alferes, olhar pro morro, tirar o inço, afofar canteiros, brincar com o Zeca e com a Malu. Contar histórias. Afinal, estou aqui. Quero dizer que te amo. E isso importa pra mim porque te escrevo cartas, e mais cartas. Talvez leias e respondas. Gosto de esperar.

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2 comentários sobre “Talvez respondas

  1. Lindo, tudo me parece em deixar rastros no caminho que vivemos e sonhamos.
    Buscas do que fizemos e principalmente do que dejamos de fazer.
    Sonhos, realidade tudo se confunde.
    Bela escritora, muito mais que um blog.
    Crie coragem e escreva um livro, você consegue!

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