Bem perto bem longe

Logo estarás longe. Bebe um bom vinho tinto espanhol por mim. Logo estarás bem perto. Faço um jogo bobo com as palavras. Desculpa. Prometi uma carta, prometi te escrever. E me agito. Quero te contar que este exercício físico que me imponho parece punitivo. O corpo reclama. Alguma coisa está fora do lugar. Não é a idade, mas sou eu mesma deslocada do que as pessoas nomeiam/dizem ser tempo, solução, vida. Um amontoado de assertivas. Talvez não apenas deslocada, mas enfiada, literalmente, na tranquilidade mansa de ser eu mesma. Noites compridas abarrotadas de notícias descontroladas porque o momento é assim mesmo enlouquecido. O Brasil se agita inquieto, aflito. Grita estranhado. Mas posso desligar o botão, e te contar outra história. Quem sabe brinco com as bonecas? Não. Vou te esperar no jardim. Vou colher crisântemos, hortênsias. Ou rosas amarelas, abertas, ou em botão. Ou ramos miúdos de violetas. Uma braçada de flores para te alegrar. Preciso fazer alguma coisa feliz, diferente, preciso fazer maior… Preciso pentear o cabelo, comprar roupas coloridas, colocar uns brincos.  Enquanto te espero enfiar os dedos na terra, arrancar o inço, cavar para plantar outras flores. Podar os galhos secos. Sentir o cheiro da grama. E te abraçar. Abraçar é bom quando se conhece o cheiro, e se reconhece a voz.  Não gosto mesmo de ficar acordada de noite, mesmo com lua e estrela no céu. Gosto de espiar para o escuro e dormir. Se não consigo vou para o jardim te esperar. Bebo um cálice de vinho.  Ou um copo com muita água e dois limões. E agora te escrevo. Enquanto as letras vão se amontoando toco na exaustão. Acalmo. Por que o corpo não se acomoda? Não compreendo. Todos os travesseiros em posições estratégicas. Lençóis limpos, perfumados. A casa escura. A inquietação perturba. Notícias pipocam, e a curiosidade se acende. Os músculos das pernas reclamam. As costas. Os braços. Tenho que dar voltas pela casa. E me aborreço feito criança: deveria poder chorar aflição, deixar escorrer as lágrimas. Lavar o corpo com esta inundação da alma.  Reclamar, colocar angústia no grito… , aflição porque não durmo na hora do sono. Porque estou inquieta, esvaziada. Não sei o que deveria mesmo te escrever. Esqueci o principal. Ficou a espera assim com cheiro de terra, de flor, e alegria também, tu sabes. Estás no lugar certo.  Bem perto, mas logo estarás longe.20140825_164658

 

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