Ponto de vista

3.

Sempre queremos justificar as histórias. A verdade importa pouco porque é apenas um ponto de vista, tem um olhar, o nosso. E tudo está mudando, quando digo tudo eu me refiro aos fatos, as pessoas, ao mundo. Alguns objetos permanecem, como escreve de um jeito cheio, John Updike no livro Busca o me rosto: “Estranho, pensou Hope, como os objetos nos seguem de um lugar ao outro, mais fiéis que os amigos orgânicos, que nos abandonam quando morrem.” É verdade, o objeto está sempre ao nosso alcance tangível, e o tempo, muitas vezes, nem o deforma, cria uma pátina, só isso. E então afirmamos que nada mudou. A mesa é a mesma, as cadeiras trocaram o estofado, são as mesas. Os livros envelheceram, mas estão lá, os mesmos, encadernados de vermelho, com as iniciais douradas na lombada. E o cheiro. O cheiro, o mesmo. Claro que nós mudamos, e nosso olhar, percepção mudou. Os fatos não eram exatamente como eu descrevo. Nem como ele explicou. Na verdade a importância que emprestamos ao fato se avoluma, e toda a medida está naquele sentimento avolumado. Alguém omitiu isso, esqueceu aquilo outro. Disse, sentiu, enfeitou o encontro do jeito que podia, escondeu o que não deveria esconder, ou porque não achou justo relevar. E as histórias, as nossas, qualquer história tem uma infinidade de facetas. O vilão é o anjo, tanto quando o demônio é santificado. O que é exatamente o GOLPE? Não usamos o mesmo sentido. A tal dialética! Então buscamos o terapeuta. Escuta. Escuta, repetimos, repetimos, ele puxa aquele fio, estica. E damos um nó pra continuar porque a tensão o fez partir. Juntamos os pontos, seguimos contando, afirmando, colorindo, esquecendo, e deixamos a narrativa cheia de lacunas, ou resultados, ou como se explica, deixamos as narrativas incompletas. Mas todas elas importam, embora não se consiga chegar ao fim. Haja notas, interpretações, coerência, fluidez, mas nunca haverá o ponto. Nada está exatamente consumado. Francisco tem a voz de Manoel, Manoel traz o jeito de andar de Francisco. Um lambuzou o tempo de dúvidas, o outro quer polir, elucidar. Tudo não passa de um teste, um experimento. E Isabel está, assim mesmo, alegre.

Quando ele abriu a gaveta encontrou uma verdade naquelas anotações. Embora pareça uma resposta. O que está escrito é apenas um sinal: “Nenhum fato neste mundo tem tanta importância, a não ser a loucura da importância que lhe damos”. (C.K.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s