O segredo de todos

1.

Sentou perto de mim, e não falou.

O motivo de estarmos constrangidos?

Calor. Excesso de sol. Excesso de verão. Excesso de silêncio. Excesso.

A luz, a sede. O suor do meu corpo incomoda. Vou repetir, detesto silêncio, estar imóvel, e esperar. Ter que escolher entre um amor, e outro amor. Um beijo, ou um abraço. Francisco importa. Fugir, abandonar lógica, ser feliz. Acompanhar o desejo ardido. Deveria entender, segundo minha avó, a importância de escolher Manoel. Não entendia.

Penso naquela tarde, e no dia seguinte. Penso nas palavras de tia Celina. Ouço sua voz repetindo ao meu ouvido enquanto me abraçava:  “Nenhum fato neste mundo tem tanta importância, a não ser a loucura da importância que lhe damos.”* Bebemos o suco da jarra vermelha, devorei os biscoitos da lata, e rimos enquanto eu contava, num fôlego, em detalhes, toda a história daquela tarde louca que rolamos Francisco e eu, aos beijos pelo gramado. Tiramos a roupa para examinar o corpo um do outro. E como estava alegre. Expliquei, com a boca cheia de bolacha, que a felicidade tinha este gosto de grama. Contei que Francisco dizia que o meu corpo tinha cheiro de manteiga. E foi como ser a Gabriela de Jorge Amado…

2.

Isabel mexeu o corpo, o vestido de algodão colou nas pernas. Embora as portas se abrissem para a varanda, e as venezianas fizessem um pouco de sombra, o sol era a única coisa estabelecida, acomodada naquela sala. Tudo o mais se traduzia em constrangimento. As labaredas do fogo subiam pelo pescoço das pessoas.

*(C.K.)

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