Depois do mal…

Oftalmologista, variações sobre o mesmo tema. Nada alterado. Fico surpresa. Os olhos, quietos, normais. Escolho uma armação nova, redonda, pequena. Para lentes multifocais? Insisto. Gosto desta novidade colorida.

Quanto tempo? Lerei aqueles volumes empilhados, ostensivamente, na mesa redonda? Não sei. Depois da doença a concepção de tempo se alterou, um dia tem sabor de mês. Mesmo assim durmo muito e, cedo. Fecho os olhos para o sono. Sensação inversa de perder o tempo. A cada noite vivo mais e intensamente para o dia seguinte.

Ontem, de volta, abri todas as janelas, e sentada na poltrona vermelha deixei as horas vagarosas, sonoras avançarem… O som do piano me acalmou, conversou, e se estendeu pela sala. Gosto da música que se movimenta nas cordas. Na mesa redonda, a caneta tinteiro, um caderno fino sem pauta. Um par de óculos. E a banqueta para apoiar os pés.

Emagreci. O corpo pequeno e leve acomoda melhor o passo. O movimento desenha beleza. Gosto de ter emagrecido assim sem fazer esforço. Bebo o mesmo cálice de vinho. Como o pão, a manteiga, o queijo. Sigo nas consultas intermináveis, exames estranhos, resultados demorados. Caminhadas longas, espichadas no entardecer. Vejo pessoas distraídas. Conversas de calçada.  Mansidão. Estou atenta. Sempre fui deste jeito. O jeito de dizer coisas devagar, pausado. Reajo, intensifico o som… Bernstein e Mozart. Perfeitos. Posso ficar o dia inteiro aqui olhando os minutos.

Paulo Sérgio, você esqueceu a ponte aérea? Aquele voo tardio para o Rio de Janeiro? Chegaríamos duas horas da manhã. Confraternização do atraso. Da alegria passarinhando. Como pode esquecer São Paulo? Não posso. O encontro, o suceder de encontros. O sol do verão. Chico’s Bar. Lagoa Rodrigo de Freitas. O corpo que conversa com outro corpo no mesmo ritmo manso da noite, na violência da tempestade iluminada, perfeita. Esqueci as palavras, mas não o gesto. Nem das voltas da musica. Quanto tempo esta paixão de alegria com alegria nos pertenceu?  Não esqueço você. Você imponente, possuído de amor…

O tempo se espreme. Gosto de lembrar. Imagino você sentado na poltrona, pernas esticadas. No copo redondo, amarelo, uísque.

Reencontro virtual porque você não veio me ver. Entre São Paulo e Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro. E o amar do amor.

Tempos difíceis! Você não veio.

 

”  –  Nesse dia eu ia pedir para vivermos juntos. Uma vez na vida eu me controlei, totalmente, e foi por você. Não podia conceber a vida sem você.” (p.134)

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Para a minha prima Odila, a boa lembrança…

 

3 comentários sobre “Depois do mal…

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