Manoel Puig diz…

Será mesmo?

Não há nada pior do que ficar calada. Mas eu, quando fico com raiva, fico bloqueada, e nada mais. Talvez aí esteja a diferença entre o homem e a  mulher, a mulher é toda impulso,  toda sentimento, e se deixa consumir pela raiva, em vez de dizer o que pensa. Mas, na verdade … nesses momentos eu não penso. Quando alguém me atropela, eu não penso. O sangue me sobe á cabeça, e nada mais. Uma reação tipicamente feminina. Por sua vez, um homem, justamente quando alguém tenta atropela – lo, é que se levanta. É preciso admitir isso, que a gente já nasce assim. Beatriz diz que não nascemos assim, que somos educadas assim. Eu acho que é coisa da natureza..

E é lógico, se a gente é atraente, é por causa da sensibilidade, da meiguice, então a gente não pode ser tão cérebro. Ou se é uma coisa ou outra. Senão não haveria atração entre sexos. Cada um contribui com uma coisa. Mas então não deveria dar – me tanta raiva quando alguém me atropela. E além do mais o consegue. Mas aí está o problema, o que acontece é que um homem de verdade, um homem superior, digamos, não superior a mim, porque então Beatriz teria razão e não tem, senão superior de outro modo… Bem, é melhor começar tudo de novo.”

(70-71)  Púbis Angelical, Manoel Puig, Círculo do livro: 1984.

2016-02-16 21.48.28

Depois do mal…

Oftalmologista, variações sobre o mesmo tema. Nada alterado. Fico surpresa. Os olhos, quietos, normais. Escolho uma armação nova, redonda, pequena. Para lentes multifocais? Insisto. Gosto desta novidade colorida.

Quanto tempo? Lerei aqueles volumes empilhados, ostensivamente, na mesa redonda? Não sei. Depois da doença a concepção de tempo se alterou, um dia tem sabor de mês. Mesmo assim durmo muito e, cedo. Fecho os olhos para o sono. Sensação inversa de perder o tempo. A cada noite vivo mais e intensamente para o dia seguinte.

Ontem, de volta, abri todas as janelas, e sentada na poltrona vermelha deixei as horas vagarosas, sonoras avançarem… O som do piano me acalmou, conversou, e se estendeu pela sala. Gosto da música que se movimenta nas cordas. Na mesa redonda, a caneta tinteiro, um caderno fino sem pauta. Um par de óculos. E a banqueta para apoiar os pés.

Emagreci. O corpo pequeno e leve acomoda melhor o passo. O movimento desenha beleza. Gosto de ter emagrecido assim sem fazer esforço. Bebo o mesmo cálice de vinho. Como o pão, a manteiga, o queijo. Sigo nas consultas intermináveis, exames estranhos, resultados demorados. Caminhadas longas, espichadas no entardecer. Vejo pessoas distraídas. Conversas de calçada.  Mansidão. Estou atenta. Sempre fui deste jeito. O jeito de dizer coisas devagar, pausado. Reajo, intensifico o som… Bernstein e Mozart. Perfeitos. Posso ficar o dia inteiro aqui olhando os minutos.

Paulo Sérgio, você esqueceu a ponte aérea? Aquele voo tardio para o Rio de Janeiro? Chegaríamos duas horas da manhã. Confraternização do atraso. Da alegria passarinhando. Como pode esquecer São Paulo? Não posso. O encontro, o suceder de encontros. O sol do verão. Chico’s Bar. Lagoa Rodrigo de Freitas. O corpo que conversa com outro corpo no mesmo ritmo manso da noite, na violência da tempestade iluminada, perfeita. Esqueci as palavras, mas não o gesto. Nem das voltas da musica. Quanto tempo esta paixão de alegria com alegria nos pertenceu?  Não esqueço você. Você imponente, possuído de amor…

O tempo se espreme. Gosto de lembrar. Imagino você sentado na poltrona, pernas esticadas. No copo redondo, amarelo, uísque.

Reencontro virtual porque você não veio me ver. Entre São Paulo e Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro. E o amar do amor.

Tempos difíceis! Você não veio.

 

”  –  Nesse dia eu ia pedir para vivermos juntos. Uma vez na vida eu me controlei, totalmente, e foi por você. Não podia conceber a vida sem você.” (p.134)

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Para a minha prima Odila, a boa lembrança…

 

De ter pensamento

“Se eu fosse pressionado a colocar um rótulo em meu pensamento político, eu o chamaria de quietismo pessimista anarquista. Ou anarquismo quietista pessimista, ou pessimismo quietista anarquista: anarquismo porque a experiência me diz que o que está errado com a política é o poder em si; quietismo porque tenho minhas dúvidas sobre a vontade de se pôr a mudar o mundo, uma vontade infectada de desejo de poder; e pessimismo porque sou cético, não acredito que, num sentido fundamental, as coisas possam ser mudadas. (Pessimismo desse tipo é primo, talvez mesmo irmão, da crença no pecado, isto é, da convicção de que a humanidade não é passível de aperfeiçoamento.”)

Diário de um ano ruim, J.M.Coetzee. (p.213)

Liberdade

Só uma pessoa vigilante consegue conservar a liberdade.

Caminhar, movimento simples. Chegar é difícil.

Preciso repetir e explicar. Colorir. Sossegar.

Estou chegando. Devagar, mas chegando … Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2016

2015-04-21 17.48.50

Limite de resistência

Cada homem, como cada cão, tem o seu limite de resistência. A maior parte dos homens atinge esse limite após trinta dias de tensão, mais ou menos contínua, sob as condições do combate moderno. Os mais fracos sucumbem em quinze dias. Os mais fortes resistem quarenta e cinco ou até cinquenta dias. Fortes ou fracos, todos finalmente soçobram. Todos, quer dizer, os que gozam de boa saúde. Porque, diga-se com sarcasmo, as únicas pessoas que conseguem suportar indefinidamente a pressão da guerra moderna são os psicopatas. A loucura individual é imune às consequências da loucura coletiva.” (p.90)  Regresso ao Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Escrever sobre amor, conversas fúteis e ligeiras, uma aberração. Estamos em abril de 2016. Outubro cinzento, excessivamente quente. Excessivamente desesperançado. É Brasil, foi Brasil, seguirá sendo Brasil. O mesmo desde a documentada descoberta de Pedro Alvares Cabral. Quem foi mesmo que chegou às terras de Vera Cruz? Em que dia? O que sabemos sobre história, sobre o que importa?

Está tão escuro nesta rua! Nenhum caminho, a rota, ou solução, ou chegar.  Como escreve Huxley: “Cada homem, como cada cão, tem o seu limite de resistência.” Chegamos ao limite? O esvaziamento tem cheiro de entrega. Estamos acuados. Como o cão pastor do meu vizinho. Cerceado. Limitado.Posso chorar por ele, mas só posso chorar.  Estarrecedor. Passamos por momentos piores do que este? Ou este é o pior porque é hoje?

Servir e dignidade.  O que foi mesmo que Karl Max escreveu? E o que Sigmund Freud tentou explicar? Quem foi Henry Ford? Quem é Winston Leonard Spencer – Churchill?  .

 

Ponto de vista

3.

Sempre queremos justificar as histórias. A verdade importa pouco porque é apenas um ponto de vista, tem um olhar, o nosso. E tudo está mudando, quando digo tudo eu me refiro aos fatos, as pessoas, ao mundo. Alguns objetos permanecem, como escreve de um jeito cheio, John Updike no livro Busca o me rosto: “Estranho, pensou Hope, como os objetos nos seguem de um lugar ao outro, mais fiéis que os amigos orgânicos, que nos abandonam quando morrem.” É verdade, o objeto está sempre ao nosso alcance tangível, e o tempo, muitas vezes, nem o deforma, cria uma pátina, só isso. E então afirmamos que nada mudou. A mesa é a mesma, as cadeiras trocaram o estofado, são as mesas. Os livros envelheceram, mas estão lá, os mesmos, encadernados de vermelho, com as iniciais douradas na lombada. E o cheiro. O cheiro, o mesmo. Claro que nós mudamos, e nosso olhar, percepção mudou. Os fatos não eram exatamente como eu descrevo. Nem como ele explicou. Na verdade a importância que emprestamos ao fato se avoluma, e toda a medida está naquele sentimento avolumado. Alguém omitiu isso, esqueceu aquilo outro. Disse, sentiu, enfeitou o encontro do jeito que podia, escondeu o que não deveria esconder, ou porque não achou justo relevar. E as histórias, as nossas, qualquer história tem uma infinidade de facetas. O vilão é o anjo, tanto quando o demônio é santificado. O que é exatamente o GOLPE? Não usamos o mesmo sentido. A tal dialética! Então buscamos o terapeuta. Escuta. Escuta, repetimos, repetimos, ele puxa aquele fio, estica. E damos um nó pra continuar porque a tensão o fez partir. Juntamos os pontos, seguimos contando, afirmando, colorindo, esquecendo, e deixamos a narrativa cheia de lacunas, ou resultados, ou como se explica, deixamos as narrativas incompletas. Mas todas elas importam, embora não se consiga chegar ao fim. Haja notas, interpretações, coerência, fluidez, mas nunca haverá o ponto. Nada está exatamente consumado. Francisco tem a voz de Manoel, Manoel traz o jeito de andar de Francisco. Um lambuzou o tempo de dúvidas, o outro quer polir, elucidar. Tudo não passa de um teste, um experimento. E Isabel está, assim mesmo, alegre.

Quando ele abriu a gaveta encontrou uma verdade naquelas anotações. Embora pareça uma resposta. O que está escrito é apenas um sinal: “Nenhum fato neste mundo tem tanta importância, a não ser a loucura da importância que lhe damos”. (C.K.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O segredo de todos

1.

Sentou perto de mim, e não falou.

O motivo de estarmos constrangidos?

Calor. Excesso de sol. Excesso de verão. Excesso de silêncio. Excesso.

A luz, a sede. O suor do meu corpo incomoda. Vou repetir, detesto silêncio, estar imóvel, e esperar. Ter que escolher entre um amor, e outro amor. Um beijo, ou um abraço. Francisco importa. Fugir, abandonar lógica, ser feliz. Acompanhar o desejo ardido. Deveria entender, segundo minha avó, a importância de escolher Manoel. Não entendia.

Penso naquela tarde, e no dia seguinte. Penso nas palavras de tia Celina. Ouço sua voz repetindo ao meu ouvido enquanto me abraçava:  “Nenhum fato neste mundo tem tanta importância, a não ser a loucura da importância que lhe damos.”* Bebemos o suco da jarra vermelha, devorei os biscoitos da lata, e rimos enquanto eu contava, num fôlego, em detalhes, toda a história daquela tarde louca que rolamos Francisco e eu, aos beijos pelo gramado. Tiramos a roupa para examinar o corpo um do outro. E como estava alegre. Expliquei, com a boca cheia de bolacha, que a felicidade tinha este gosto de grama. Contei que Francisco dizia que o meu corpo tinha cheiro de manteiga. E foi como ser a Gabriela de Jorge Amado…

2.

Isabel mexeu o corpo, o vestido de algodão colou nas pernas. Embora as portas se abrissem para a varanda, e as venezianas fizessem um pouco de sombra, o sol era a única coisa estabelecida, acomodada naquela sala. Tudo o mais se traduzia em constrangimento. As labaredas do fogo subiam pelo pescoço das pessoas.

*(C.K.)