Há tempo de amar e há tempo de esquecer

Deveria ser a melhor hora a do amanhecer. Deveria ser bom um dia depois do outro porque a carroça anda, as abóboras se acomodam, os cães festejam latindo. A estrada se transforma, e se ilumina ao amanhecer. As árvores conversam com a passarinhada que acorda. As flores abrem porque o sol está ali, ao amanhecer. Deveria ser a melhor hora quando o mundo se apresenta passado a limpo, liso. Perfeito. Mas nesta manhã está tudo diferente. É a história. Nem sempre o fio condutor da manhã é o melhor tempo. Nem sempre as noticia são boas, nem sempre podemos apenas seguir e sorrir. Tem dia que amanhecemos assim, estremecidos com o que vai acontecer, ou já aconteceu. Nem todas as manhãs são produtivas, nem todas as tardes nos adormecem, nem todas as noites são cúmplices. Existe o tempo de chorar. O tempo de lamentar. De festejar, e há (gosto deste verbo antigo, o haver no sentido de existir porque está no Eclesiástico, na Bíblia, e a Bíblia é o livro dos livros) também o tempo do perdão que se espreme aflito entre alívio e raiva.

A história está começando, e como todas estas estórias de vontade de escrever, não devem terminar porque o tempo de passar tem esta gota importante da exaustão, esvaziamento. O que se está pensando neste momento, pronto, completo, feito para nascer e sair de jorro já se esgota num outro segundo. Esquecer pode ser triste também, como esvaziar, como choramingar, como se queixar, como toda coisa que se coloca na balança do apagado. E a história se prepara avolumada pra explodir, eclodir, nascer, e pronto, num repente termina. Ou sei lá, quem sabe se completa no imaginário do leitor. Se for a história de um menino, se pensa na menina. Tinha-se avó, se imagina o avô, se pretendia explicar abandono, se imagina liberdade. E a independência flutua sobe as ruas como festa, e era para ser solitária. Estar só pode ser mais completo do que estar com o Outro se este Outro não nos vê. Estranha história de olhar… Esta diferença, esta incógnita do olhar, do desejo de compartilhar, pode ser tão frustrante! E por isso nos dizem que estar bonito ao amanhecer, pentear, perfumar, frisar a roupa, desenhar os olhos tem que ser alguma coisa pessoal de nós para nós mesmos. Assim, todas as estórias, ou histórias se completam no leitor que atento e ativo se retrata, se pinta, se desenha, e se enxerga em cada letra. Não vou explicar porque hoje é um dia triste. Vou contar que hoje a minha filha está de aniversário. A filha que mais gosta de festa e de acertos. Das rezas, dos cantos. A filha que prepara, organiza a felicidade da alegria (isso existe?) como se estes sentimentos fossem pessoas vivas, não projeções, não abstratos, mas concretos como uma cadeira, uma mesa, uma flor. A filha que se agita inteligente entre sentir, fazer com a mesma energia vigorosa. Esquecemos porque cansamos, mas ela não. Desistimos, mas ela não. Acabrunhamos, mas ela não. Estar com esta filha é contar histórias alegres, resolvidas, e sempre com bons resultados. Com expectativas certeiras. Histórias de superação.  Balões, flores, velas, docinhos, música, risadas. E os equívocos, os erros se diluem. Risadas. Um pacote de coisas boas. Ela nasceu linda. Ela nasceu inteligente.  Ela nasceu no dia nove. Ela pintou, bordou, recortou, viajou, namorou, agitou, conquistou festiou (festear existe? Vem de festejar), e casou. Sempre neste ritmo acelerado de que a vida é um galope feliz. Que as boas coisas se abrem desajeitadas, mas se fecham harmoniosas. E se hoje é aniversário. Hoje só posso contar história boa, não as tristes… Engaveto, coloco na caixa. Guardo. Esqueço, e deixo para contar amanhã a história do menino que tropeçou no degrau e sangrou o joelho. Nem conto as melancólicas, muito menos as trágicas. Tudo amanhã, como (Katie) Scarlett O’Hara no filme (romance escrito por Margaret Mitchell) E o vento levou, Amanhã é outro dia. Afinal, amanhã é mesmo um novo dia! Por pior que seja à noite, amanhã é outro dia…
Vou escrever amanhã. Não há, não existe, não tem tempo de chorar, mas de recomeçar para quem faz aniversário hoje. Hoje minha filha faz aniversário. Elizabeth M.B.Mattos – 9 de maio de 2016 – Torres (para minha filha Joana)

Reedito o texto no desaniversário,  eternizado por Alice*! Preciso de toda a energia que ela, a minha filha tem. Estou num momento político / interno (que será prolongado) complicado! Desavisado o povo brasileiro!, desavisadas as pessoas …, desavisada eu que desestabilizo. Tempo tem limite. Velhos envelhecem todos os dias. Dores no corpo,  fôlego curto, vontade esgaçada, desânimo. Olhos cabeça costas …, doem. E a vontade de ficar aquietada espremida espiado dormitando parece maior. E toda a independência espiritual, todo o amor desfocado, a desesperança  tira o  ar, sufoco …, e nem sinto. Pois hoje, relendo este texto, eu me pergunto dos sonhos sonhados e esquecidos. Desanimo / desanimas, eu sei. Não, eu não deveria desanimar. Nem tu deverias desanimar. Como guerreira devo morrer na esperança, dentro do tempo. Abraçada pela vida, alerta. Fechar os olhos pacificamente. Mas …, amanhã é outro dia. Ainda temos um amanhã, eu acho …

*Charles Lutwidge Dogson – pseudônimo Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”
Eclesiastes 3:1-8

JOANAAAAA HOJE no teatro

Joana – Rio de Janeiro – outubro de 2018

9 comentários sobre “Há tempo de amar e há tempo de esquecer

  1. Parabens por a filha feliz que e cheia de energia , que aniversaria!
    Adorei: Amanhã é outro dia!
    Se nos gostarmos e formos nossos amigos , atravessaremos as tempestades e escuridoes com mais galhardia e coragem e amanha será outro dia………

  2. Muito bom isso Dado “Se nos gostarmos e formos nossos amigos, atravessaremos as tempestades e escuridões com mais galhardia e coragem e amanhã será outro dia…” A comunhão nos faz bem.

  3. Amei…amanhã é outro dia e vai ser melhor que hoje…porque nós fazemos o nosso dia, mesmo nesses tempos em que estamos vivendo…eu acordo e digo que hoje vou ser feliz e parto para um dia feliz , mesmo sentindo dores elas se dissipam com uma batida de gengibre, leite moça, caninha 51 que arde e levanta qualquer um…rsrsrs isso que eu não bebo, mas tem me ajudado muito, aí parto para a rua para as fisioterapias e fico feliz de estar andando, vendo coisas novas, gente nas ruas , até os pivetes fazem parte do senário e para nós ficarmos mais atentas… Jôana , não sei nem o que falar, pq me emociona … é um pouco minha filha. Parabéns para vcs duas Amo vcs. ❤ 🙂

    • Marcinha, esse carinho a história vivida, o amor…sempre inesquecíveis gestos em nossas vidas eternos, nada faz esquecer e apagar. Amamos você também, mesmo que no dia a dia não estamos presentes…essa é a mágica da vida…a distancia não apaga o amor verdadeiro cultivado. Eterno! bjs

  4. Mae, que presente mais lindo!!!…palavras …quando se lê, não se imagina o quanto se causa…
    Feliz é palavra…Hoje recebi orquídeas lindas…quem será que podiam ter mandado?? Tão lindas…Mandaram por praxe ..por gentileza, não por conhecimento da minha pessoa…pela data, pelo trabalho que executo…mas o efeito…foi especial…Amei!! Amei!!
    Fazia tempo que não recebia flores, elas renovam a alma e o espírito…um verdadeiro presente para que ama a vida!! Fiquei emocionada e tão feliz…o cartão ….”Parabéns !! Tudo de Bom!!” e foi mesmo …tudo de bom, mesmo não conhecendo o remetente, amei!! Um gesto feito no automático por uma secretária que não me conhece…se me conhecesse …saberia que não era nada automático e que meus olhos brilhariam ao ver tamanha beleza…lindas!!! Ganhei o dia, depois da joia,a flor!!
    Obrigada mãe por ter me colocado no mundo e ter me ajudado a me transformar na mulher que hoje sou..quiçá possa fazer o mesmo pela minha Valentina…te amo!!

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