Inquietude e bobagem

 

 

Quando vou dormir, e durmo cedo, levo um copo com água para minha cabeceira. Levo livros. Levo minha insônia desconsertada, incomodada pelo cansaço do corpo. Levo lápis, papel. Desejo que a noite aconteça feiticeira. Faça boas mágicas. E vou pensando que logo será dia outra vez.  Outra vez amanhecer. De manhã tenho mais esperanças, menos medo.  De manhã tenho expectativas. Mas hoje foi diferente. A magia de acordar, passar o café, comer o pão com manteiga, descascar a laranja se quebrou. Estou arrepiada, presa na superstição. Bebi a água adormecida da noite. Bebi com ela os pesadelos e a memória da noite que passou. Bebi os espíritos todos que se acomodaram naquela água. Eles que se preparavam para regar o gramado… Eu bebi a água daquele copo que levo para a cabeceira da minha cama. E pensei: Não deveria ter bebido. Vai ser um dia complicado. E foi um dia agitado naquela pressa de fazer, e assim mesmo não fazer nada. A água dormia, e eu agora converso com ela inquieta.  E agora? Acho que tudo se agita dentro de mim, no susto. Mas não posso voltar para a cama, e fazer de conta que já anoiteceu, ou que o dia terminou em meia hora…  Vou ter que chamar as fadas. Os meus anjos, meus amigos, vou ter que dançar e cantar como aquele gari de Porto Alegre. Vou ter que espantar os fantasmas. Conversar com meu pai, com minha mãe, dizer pra minha tia que estou sem sono. Vou ter que caminhar pelo quintal, e regar as  alfaces. Colher os limões. Vou cavar um pesadelo para depois enterrar mais fundo.  Vou caçar borboletas. Vou ter que fazer tantas e tantas coisas! Estarei exausta antes de escurecer. Vou mesmo dançar na calçada. Não vou dormir de dia… Vou ter que esperar que eles se acomodem outra vez no meu escuro. Vou ter que esperar.

Não, não estou pensando no Brasil, nem nos políticos, nem neste blábláblá que te assombra. Estou pensando noutras sombras, as particulares, as minhas sombras… Alguém coloca um copo dentro da pia para ser lavado mais tarde? Alguém empilha a louça sem retirar os restos dos pratos? Alguém se importa com os copos delicados?  Alguém se importa com o pingo de vinho na toalha? Alguém sente o cheiro de pano naquela taça guardada em que serviram o suco? Alguém reclama? Não sei. Eu me importo.  Mas  se acreditei que era favorável a algumas exigências de esquerda…Ou a olhar o mundo a começar no horizonte, ou a percepção das minorias… Não sei mais nada.  Não compreendo. E hoje bebi todos os pesadelos  que me assombram.  O que posso te contar? Que estou atrapalhada,  enredada  com os meus fantasmas.

 

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