Olhos não envelhecem

“A única coisa que não envelhece no rosto são os olhos.”

Deveria estar ocupada enchendo caixas. (Sempre tenho caixas para encher, ou esvaziar, trocar de lugar.) Preparar o armário que vou desmontar. Lavar a louça. Passar o aspirador, tirar o pó. Dobrar a roupa. Alguma coisa útil. Apesar de ter aberto as janelas, ter o sol ao longo da sala, a luz enfiada nos meus olhos, resolvo ler. Pois é, algumas urgências são consideradas urgências, outras urgentes não.  Ontem, delícia dos desenhos, possíveis novas combinações. Folhear cadernos-diários. Prazer da memória que pode mesmo ser duas vidas nesta meteórica passagem, foi o dia. Hoje conversei com a Darci mais tempo do que poderia, ou deveria. Sempre apressada. Apressada para voltar. Para estar em casa. Como diz o amigo: “Voltar para o ninho, tua casa, tuas coisas, teu tempo… Depende muito aonde vamos, e com quem privamos. Tem outra coisa, às vezes, nem Paris adianta resolve problemas porque levamos tudo junto na mala pesada. Novidades, energia, e um pouco de coragem para coisas novas.” Menciona a urgência em voltar. Sabe da mala pesada. Sabe dos desvios, mas não sabe/ não pensa que tem também envelhecer…  Energia. Novidade. Coragem. Encontro na casa, no meu tempo. Não sei. Respondo. Não comprei pão, nem empadas, comprei livros. Um almoço apressado. Um copo de vinho. Uma preguiça. E penso. O texto de ontem não deveria terminar em abraço sonolento, a história só começou. É o encontro deste desencontro. Preciso me apressar. Agora transcrever o que me faz fazer.

“A única coisa que não envelhece no rosto são os olhos. Tem o mesmo brilho no dia em que nascemos e no dia em que morremos. Seus vasos sanguíneos podem se romper, é verdade, e as córneas podem se tornar baças, mas sua luz jamais se modifica. Há uma pintura em Londres que, toda vez que vejo, mexe comigo. É um autorretrato de Rembrandt velho. As pinturas tardias de Rembrandt em geral se caracterizam por uma crueza sem precedentes, e nelas tudo se subordina à expressão do momento, a um só tempo reluzente e sagrado, e continuam sem paralelo nas artes, com a possível exceção do patamar que Hölderlin atingiu nos seus poemas tardios, […] o rosto é enrugado, cheio de vincos, sem viço, maltratado pelo tempo. Mas os olhos brilham e, embora não sejam jovens, parecem imunes ao tempo que imprimiu sua marca no rosto É como se outra pessoa olhasse para nós de algum lugar dentro do rosto, onde tudo é diferente.[…] o que Rembrandt pintou, é a essência desse ser, aquilo pra o qual ele despertava a cada manhã, que logo ocupava seus pensamentos mas não era propriamente um pensamento, que ele sentia primeiro mas que não era exatamente um sentimento, e aquilo que a noite o fazia adormecer, até que certo dia para sempre. Aquilo que num ser humano o tempo não atinge e de onde provém o brilho dos olhos. ” (p.27-28)

Karl Ove Knausgard,  A morte do Pai, volume 1 MINHA LUTA

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Afinal é um texto no texto. A leitura tem esta magia de estar junto mesmo longe. Ler é também escrever…mentalmente nos escrevemos ou reescrevemos a cada afinidade … Escrever sentimento, ou memória de outra lembrança. Dos olhos. Do olhar feito janelas. Importa o que vemos, o que sentimentos, não apenas o envelhecer… o olhar não envelhece, guardamos aquela primeira centelha, aquele impulsivo do novo. No jovem olhar a dignidade vestida como desafio. Desafio até para morrer, mas muito mais para viver como escreve um amigo: “Tenho um amigo psiquiatra, mais velho do que eu.
Saímos para jantar e conversar sobre a vida, sorvendo um bom vinho e vivenciando aquela intimidade, que só os amigos possuem.
Num momento digo, é preciso ter dignidade para envelhecer… aceitar, no mesmo momento ele responde: É preciso dignidade até para morrer, após continuamos a falar do que vivemos e curtimos , saboreamos aquele momento de pura amizade e verdade.
Belos olhos são lindos, mas o mais importante é para aonde eles olham!” PARA AONDE ELES OLHAM é o que importa.

Um comentário sobre “Olhos não envelhecem

  1. Afinal é um texto no texto. A leitura tem esta magia de estar junto mesmo longe. Ler é também escrever. Escrever sentimento, uma memória de outra lembrança… Dos olhos. Do olhar feito janelas…Importa o que vemos, o que sentimentos, não apenas envelhecer… No olhar jovem,a dignidade vestida como desafio. Até para morrer, mas muito mais para viver.
    Como escreve um amigo:
    “Tenho um amigo psiquiatra, mais velho do que eu.
    Saímos para jantar e conversar sobre a vida, sorvendo um bom vinho e vivenciando aquela intimidade, que só os amigos possuem.
    Num momento digo, é preciso ter dignidade para envelhecer… aceitar, no mesmo momento ele responde: É preciso dignidade até para morrer, após continuamos a falar do que vivemos e curtimos , saboreamos aquele momento de pura amizade e verdade.
    Belos olhos são lindos, mas o mais importante é para aonde eles olham!” PARA AONDE ELES OLHAM é o que importa.

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