Descuidados

Não sei por que temos que voltar sempre ao início do nada.  Voltar de Paris, ir a Bruxelas, ou a Nice, esquecer Limoges, não sei o  que dói mais. Estamos descuidados, tristes, desatentos. Estou ainda a te esperar, meu querido. Desanimada, encolhida nesta esquina. Vontade de chorar,  chorar com as lágrimas todas de criança… Voltar caminhando. Sim. Voltar…

De qualquer modo não podemos voltar atrás, tudo o que fazemos é irreversível, e quando olhamos para trás não enxergamos a vida, mas somente morte. E quem acredita que as condições da época atual são o que promove essa sensação de deslocamento só pode ser megalomaníaco ou simplesmente idiota, e em ambos os casos é desprovido de consciência individual. Sinto repulsa em relação a muita coisa da época atual, mas a falta de sentido não tem origem nela, pois não era uma constante…Na primavera em que me mudei para Estocolmo e conheci Linda, por exemplo, o mundo de repente se abriu, ao mesmo tempo que a intensidade aumentou a uma velocidade alucinante. Eu  estava perdidamente apaixonado, tudo era possível, a alegria estava sempre a ponto de explodir e envolvia tudo.”

(p.71-72)  Karl Ove Knausgård Um Outro amor

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