Para esquecer as dores do massacre

Às vezes, acho que nunca mais conversaremos, ou nos veremos. Faço força, remexo a vida, procuro. Volto no tempo. Depois, eu te aguardo. Espero. E depois esqueço. Será apenas o hábito? Esta coisa volta mesmo esquisita, a insegurança. Tudo volta nada volta, porque já é outra coisa. Mas volta esta vontade de te chamar na madrugada, comprar presentes, mandar flores, preparar jantares. Festejar, escrever, e escrever, todos os dias. Cartas, telegramas, bilhetes, enfim, mimar a nós dois. Estar feliz, acreditar, rir sem medo. Recomeçar. Sim, tenho vontade de fazer tudo outra vez. Acredito que tu me tomarás pela mão, e dirás querida, vou cuidar de ti.  Ou sou eu que devo cuidar de nós dois? Como num velho filme vou revendo o que já fomos. Então, eu me conto histórias de amor, e acredito nelas todas. Por que eu não aceito a vida como ela é, ou as coisas como elas são? Sinto saudade do teu entusiasmo, e sinto saudade da primeira vez, da segunda vez quando nos encontramos no café. Do presente escondido na mala do carro. Quando pegaste na minha mão. Do dia que demos uma carona, cunhado e irmã. No dia que foste ver o meu neto. E jantamos japonês. Das idas para Torres. Dos beijos telefônicos. Da vontade de misturar os fazeres. Do dia que me deixaste dormindo numa manhã de preguiça. Dos telefones desconectados. Do que nos prometemos. Sinto saudade da paixão. Das carnes na churrasqueira. Dos vinhos. Do filme que assistimos no sofá. Dos discos que nunca escutamos. Das músicas que não dançamos. Da ida pra São José dos Ausentes que sonhei sem nunca te convencer a sonhar. Das pitangas, e do mar que me faz lembrar de ti. De todos os jogos de futebol que não assistimos. Das caminhadas por Porto Alegre. Tenho saudade das tuas risadas, do teu cheiro, dos beijos roubados. Das minhas loucas fugidas para te ver, e correr de uma galeria para outra. Das meninas, das conversas sobre nós dois, eu a me queixar, e tu a consolar. De um almoço com os filhos. Das idas e vindas. Da nossa juventude com música, e velocidade. Das fotos que te mandei, da cópia da chave. Dos presentes que inventava. Da surpresa. Da raiva quando eu me sentia roubada na fresta do teu tempo. Na vontade que sempre tive de morar contigo, e ser marido e mulher todos os dias. Dos acertos e desencontros. Da minha incoerência no amor. Que saudade eu tenho da tua cama, das roupas espalhadas, da tua pressa. Da nossa preguiça. Saudade do meu beijo no teu beijo. Das fantasias. Saudade de te esperar entregue, pronta. Não ter nenhum pudor. Rasgar a vida por nós dois. Vontade de que me chames ao telefone, de hora em hora, a surpreender. Vontade de gritar no amor sufocado do teu beijo. Ter lua, ter chuva. Nenhum sol, e o mar. E, então, só nos dois na praia. Carregar as malas, e ir pro Norte, ou pra Flórida, ou pra Paris no verão.

 

 

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