Não voltar

Não posso esquecer de contar. As pitangueiras estão floridas, as amoreiras carregadas. Amoras azuis apontam nos galhos esticados. O pomar da lagoa se manifesta. E faz cinza na beira da Lagoa do Violão.

“ Eu podia ir à Dinamarca no verão. E eu não precisava mais voltar. ‘ Eu não precisava mais voltar’. Eu nunca tinha pensado nisso antes, mas essa possibilidade mudava tudo. Com a luz fria e clara no rosto, sob o céu cinzento de outono, no meio da floresta à beira do rio, foi como se o futuro se abrisse diante de mim. Não a maneira esperada, como todos faziam, prestar serviço militar no norte da Noruega, depois cursar uma universidade em Bergen ou em Oslo, viver por seis anos numa dessas cidades e passar as férias em casa para então arranjar um emprego, se casar e ter filhos que seriam os netos dos pais. Mas simplesmente ir embora e desaparecer. Se afastar de todo mundo. Nem ao menos ‘daqui uns anos’, mas naquele exato momento. Dizer para minha mãe naquele verão: estou indo embora para nunca mais voltar. Ela não podia me impedir. Eu era livre. Eu era uma pessoa independente. O futuro se abriu como uma porta. As faias da Dinamarca. As pequenas casas de alvenaria. Lisbeh. Ninguém saberia quem eu era, eu seria apenas um recém-chegado, que logo iria embora. Eu não precisava voltar! Ninguém jamais precisaria saber qualquer coisa a meu respeito, eu podia simplesmente desaparecer, me afastar do mundo. Era uma possibilidade real.” (p.221) 

Minha Luta 4  – UMA TEMPORADA NO ESCURO,  KARL OVE KNAUSGÅRD

Pode ser esta a biografia. Autobiografia? Recorte de leituras. Um dia meu filho disse: estou indo embora para nunca mais voltar. O feito no desfeito que possa ter sido …, foi. Tantas decisões descabeladas tomadas na juventude dos 16, dos 17 anos. Ou justas, e ou precisas decisões. Ou sonhos realizados. Filhos corajosos. Não fui a Dinamarca, nem a Noruega, e a França se concretizou tantos anos depois do meu estou indo embora. Os filhos saíram para morar na Alemanha, na Itália, Estados Unidos ou para serem, apenas, livres. Revisitação a leitura dos livros do norueguês Karl Ove. Biografias convergem, retalham, aproximam … uma viagem.

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