Divórcio em Buda

Gosto desta correspondência silenciosa, não diria cifrada, porque conversamos um com o outro e sabemos o que o outro sente, ou vai dizer, ou vai escrever. Há o comentário formal, o recado. Eu, eu transito entre um livro e outro, entre uma paixão e outra. Entre raiva, tristeza, ou na euforia do encontrado. Depois uma certa melancolia porque já terminou… Sempre termina. E outro livro e outro livro. Terminei o quarto volume de Karl Ove,  espero o quinto, e o sexto, mas já sei que é isso, apenas isso: a história de um homem que quer ser escritor, quer escrever. E conseguiu escrever com sucesso. Ganhou vários prêmios. Eu me sinto vazia, estou vazia. Aquele sentimento estranho da despedida. É sempre assim na despedida, ou perto do final …  Depois esvaziamento. Vou tentar agarrar logo outra leitura. Não gosto de despedidas. Sándor Márai nasceu na Eslováquia.  Relação antiga, começou com o livro As Brasas.  Ler tem esta coisa misteriosa de apego. É verdade que o livro se fecha o tempo passa, e …. acabamos esquecendo o detalhe, fica-se com o essencial. Então, meu amigo amado, eu caminho em círculos.

Tento fechar seus olhos, sua boca, abraçar seus braços. Vou ler em voz alta para você. Enquanto leio, passa a mão nos seus joelhos. Beth M.B.Mattos setembro 2016 -Torres

Mas ela me ama …pois é, me ama. Como se costuma dizer: à sua maneira. Qual era a maneira de Anna? Ah, incondicional…. Eu sei, incondicional. Anna não regateia consigo mesma. O que é amar alguém? Por muito tempo acreditei que fosse conhecer … conhecer perfeitamente, conhecer todos os reflexos da alma … talvez conhecer seja o mesmo que amar. Mas isso é apenas uma teoria. Enfim, o que é isso, conhecer? Quanto se pode conhecer uma pessoa? Até onde se pode seguir a alma do outro? Até os sonhos? E depois? Na consciência dos órgãos já não consigo acompanhar. Não devo nem mesmo esperar enquanto cerra os olhos, despede – se de mim e se retira para aquela outra dimensão, para o espaço da noite … porque existem dois mundos, o outro fica além das dimensões conhecidas em que vivemos; e nesse outro mundo talvez vivamos de modo mais real do que no mundo do espaço e do tempo … agora sei que existe outra dimensão, totalmente nossa, diferente para cada pessoa … “ (p.143) Divórcio em Buda de Sándor Márai

 

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