DEVANEIO DE VERÃO

(De volta ao começo das tentativas, aqui o primeiro texto a ser revisado, o entusiasmo. Publicado como Tinta dos autógrafos, também no Amoras com o título de Fragmento. Sinto que preciso repassar, reeditar tanta coisa!)

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Errei o caminho naquele fatídico dia 11 de novembro de 1998. Deveria ter caminhado para a Feira do Livro, sem me demorar nas vitrines da cidade. Sem pensar em tecidos. Deveria ter permanecido sentada no banco da  Praça da Alfândega. Deveria ter esperado quem me esperava.

Errei o rumo … , e entrei na única e possível loja de tecidos que Porto Alegre abre em óleos aquarelas panos e cheiros: telas rendas algodão fazendas. Deleitada pelas sedas de amarelo ouro azul celeste preto levando ao verde desmanchado em rosado com o branco, mas fechado na palha seca do Manabu Mabe. Compro um tecido, metragem para casaco: seda com roxo castanhos pontos vermelhos em tinta derramada. É o pano usado pelo pintor  Ernst L. Kirchnner[2] no seu auto-retrato.  Saio da loja como a Mariana de Sir J. E. Millais[3], idealizo seu  vestido de veludo medieval: a corrente da castidade e a preguiça aberta diante dos vitrais das Virgens, e, como ela, também, não sento na banqueta de estofado vermelho. Atravesso os olhos pela janela, como no quadro, e, volto para Porto Alegre de 1998. Sonho com as pilhas de tecidos cheirosos do incenso e da madeira lustrosa do mogno …. espio, através dos vidros dos  armários fechados, as rendas preciosas. Toco de leve no quadro de um Cristo pendurado entre estantes pintado por Geroges Rouault[4]:  A cruz domina a composição e ocupa toda a tela. Cores ricas e formas rudemente desenhadas aumentam o poder desta imagem de salvação. Toda a realização, inclusive as densas linhas que contornam as áreas de cor, lembra os vitrais… Lembro, agora, o quadro do pintor Graham Sutherland[5]  onde a figura de  Somerset Maugham  está toda em tons de amarelos, castanhos e dourados com a manta vermelha. Escolho estas cores em tecidos de algodão que misturados à seda farão o vestido longo que eu quero usar na dança, depois de beber o vinho e…E então será como O beijo de Gustav Klimt, onírico. A luxúria e a decadência. Devaneio.  Reproduções dO Livro de Arte de Mônica Sthahel[1]O

Deixo a memória presa em tempos de antes: vejo a minha mãe costurando e bordando com o Glauco Rodrigues a renda  de um vestido de princesa que Tânia vai usar no seu baile de quinze anos no Clube do Comércio. A sala de jantar se transformou em atelier de costura. Desenhos  do Glauco. A sala tem  portas de ferro envidraçadas que se abrem para o jardim de interno da casa na rua Victor Hugo, 229,. Estamos todos lá. Não seguro a memória, nem o retorno utópico de luz e sombra que a saudade traz. Outra vez alimento o devaneio.

Dia 12 de novembro de 1988. Estou vestida com uma calça verde escuro e uma blusa de cambraia também verde. Ao pescoço sete correntes de ouro. A aliança do meu pai no dedo anular, – amuleto. Arrumei os cabelos num lenço de algodão pintado à mão, também pelo Glauco. Quero ver o quadro  O par  de Glênio Bianchetti, –  óleo de diferentes tons de verde. Aquele da minha lembrança. Antes de entrar na Loja de Tecidos paro na calçada, como a buscar o rumo, penso na sala de leitura, ou  era uma biblioteca com portas – janelas abrindo para o alpendre dos antúrios,  a pequena-grande sala de leitura. Onde ela, minha mãe, pendurou o quadro, em cima da lareira. O vermelho do fogo e o verde do quadro. Certamente, na mesa redonda com gavetas redondas, ali, estaria o prato de cerâmica  branca alemã com limões e peras. Os detalhes.

Olho para a porta. Entro. Agora quero voltar a pisar nos tapetes persas e comprar o possível.  Ele usa um terno bege de linho. Caminha ora pelo encerado da tábua corrida, ora pelos vermelhos dos tapetes. Camisa branca de uma cambraia leve, não usa gravata, tem os primeiros botões abertos. Um homem bonito e bronzeado. O rapaz, cabelos puxados presos por um elásticos, traz na bandeja de junco água fresca e dois cálices pequenos, e desaparece por uma porta estreita no fundo da sala. A loja está silenciosa, nenhum cliente. É a hora mais quente do verão. Sigo olhando entre os panos abertos nos balcões os olhos escuros deste homem intrigante. Reparo nos gestos lentos.  Escuto a voz mansa, cadenciada  a explicar  mostrar os tecidos …  Estou  eu e ele, ele e eu constrangidos sem saber exatamente o porquê. Sem falar levanto os olhos para as estantes, busco ver o melhor,o mais bonito. As peças abertas; posso escolher. Tocar.

 Esqueço a Feira do Livro. Compro nos tecidos a luxúria. Metamorfose  perigosa. Penso que  céu ar terra  cores figuras e sons e todas as coisas exteriores que vejo são apenas ilusões e enganos. Penso que o gênio maligno do desejo se serve para surpreender o desejo. O amortecimento do afeto, a drenagem do fluxo vital é responsável pela presença da beleza. O corpo transforma a distância em alienação. Sou colorida e madura. O desejo está nas minhas mãos.

É o agora não o antes que nos faz ser feliz.

….se a Feira do Livro na Praça da Alfândega não estivesse também pândega com a patronessesse embaixo de um elegantíssimo chapéu de palha, com batom bem vermelho, saia longa correndo pelas pernas e olhar vago de musa semi desmaiada, eu não teria sorrido. Bem, por que descrever o outro lado? Depois dos sonhos este ficou distante, interminável … Transpiro esperando o teu autógrafo, fico numa fila enorme. Se eu não entrasse na Loja de Tecidos seduzida por cores, cheiros e frescor.  Se …, nos teus braços, na tua voz estivesse a salvo, mas nada disto aconteceu.

Eu retorno à Loja de Tecidos no dia seguinte. Os pedaços ficam. Incansavelmente, exijo a repetição da mesma história. O reencontro da identidade, em si mesmo, fonte de prazer. Repetir os acontecimentos da vida infantil é estar fora e acima do princípio do prazer.  Não quero outra vez o prazer. Ou eu quero? Retorno. É o prazer.

Deixo-me queimar. Estou como as mulatas do Caribé: elas estão sentadas. É fevereiro de 1999. Estão aqui na minha casa, Torres; invadiram as cadeiras; deitadas em meu sofá, preguiçosas e vazias. Entraram. Lânguidas e queixosas. Úmidas e solitárias como eu, e nos observamos. O quadro O Muro Rosa nunca será vendido: renegado, embora tenha circulado pelos jornais paulistanos. Ele é mais do que a síntese que qualificou o artista baiano-estrangeiro Caribé. O que eu faço com elas? Observo o quadro que traz de volta a rua Victor Hugo e a menina Elizabeth com seu vestido de casinhas de abelhas e os sapatos de pulseirinha da Casa Seabra.

A infância bem como a memória histórica são fontes de erros, enganos e ilusão. A imaginação, descaminho e confusão. Já estive, no sonho, neste lugar, junto ao fogo, embora estivesse completamente nua.

Outra vez pensarei que o céu, o ar, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vejo são apenas ilusões e enganos. Reconstruí um homem  com cera, sem cor. Hoje ele tem a tez escura, olhos pretos. Nariz grande, braços e mãos de pescador. Quente e terno. Estou toda no desejo do corpo dele.

Comprei flores.  Baú com chave para guardar as cartas. Um relógio de marcar tempo e lupa de aumentar tempo. Um par de brincos torcidos no ouro com pérolas pendentes. Ametista em bruto. Levei dois cálices para água, dois para o vinho. Muitas frutas lustradas, cheirosas na pequena cesta italiana. Chás, os mais variados. Ervas naturais. Hortênsias. Duas garrafas de vinho. Pintei os cabelos com mechas coloridas. Seduzo com bilhetes telegramas e letras derramadas. Compro As Cartas ao jovem poeta de Rainer Maria Rilke, nas margens faço letras de amor: confissões, paixão molhada. Releio Paris é uma festa de Hemingway e recomendo que Não apresse o rio (pois) ele corre sozinho  de  Barry Stevens. Vesti uma roupa de mulher e invadi a calçada. A loja dos tecidos e das cores. Mercadoria primorosa que veio das Índias, da China, Paquistão e da África: exóticos tecidos e aquelas tela atrativas.

Entro na loja, sento na poltrona que é quase parte da vitrine. Os tecidos se derramam como cascata,  sedução. Depois, apoio meus braços na borda da mesa que exige dois castiçais de prata e um prato de cerâmica inglesa.  É a antessala das prateleiras e dos tecidos. Uma sala de chá à inglesa? Não, estamos em Porto Alegre. É verão. Jacarandás roxos ipês amarelos e o verde por tudo. Calçadas pequenas. Velhas casas tombadas, tomadas pelo comércio. Com os pacotes pesados volto pra casa e descrevo a paixão.

Antes entrego os presentes ao rapaz, com envelope selado.

Pensei o piquenique do amor!  Paro outra vez, para olhar os quadros pendurados nas paredes recobertas de madeira: são reproduções emolduradas com luxo barroco.  As molduras tomam uma parede inteira: o retrato de Yvonne Lerolle de Maurice Denis,1897[6]. Também outra analogia, A jovem professora de Jean-Batiste Siméon Chardin[7], vigorosas figuras iluminadas: mestre e aprendiz. Ainda aquela tela nas dimensões de 80X120, um pouco mais, um pouco menos Uma visita agradável de William Merritt Chase,1895, óleo sobre tela, quadro grande. Duas mulheres elegantes estão sentadas num sofá, conversando. A luz do sol invade o aposento, iluminando os tons da paleta clara do artista. Não é uma cena posada formalmente, mas uma cena típica do dia-a-dia.  Pudesse eu pintar aquela loja com a luz da sensação inteira de acolher, abrir e fechar. Possível descrever? Mais adiante, numa parede só para aquela tela, entre duas prateleiras enormes carregadas de veludos e cetins pelos dois lados, temos O devaneio de Dante Gabriel Rossetti[8]. O próprio quadro não dá qualquer indicação quanto à natureza ou ao tema do devaneio desta bela mulher, embora esteja tão absorvida por ele, que o livro e a flor foram largados em seu colo. Os vários matizes do verde que a envolvem, nas dobras de seu vestido, e as folhas das árvores que a emolduram contribuem para a sensualidade geral desta pintura.   Agrada o verde pousado na sala dos tecidos: os olhos abertos da figura feminina em devaneio. Este verde sobe pelos dedos longos que prendem o galho frágil de um arbusto: mistura da roupa, também, verde, cetim brilhante com jardim de Rossetti, o pintor. Os olhos.

Toquei nove vezes o prazer, agucei os sentidos.  Neste dia esqueci de voltar para casa. Perdi o entardecer do quintal. Fiquei presa na noite-verão de Porto Alegre. Agora, saio da loja: todo o verão de novembro entra, outra vez, no meu corpo.

Devaneios de verão. Perdoa meu amigo e espera o meu beijo. Vou voltar a trabalhar, acordar. As férias terminaram. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2016

[1] Título original: The Art Book/1994 Phaidon Press limited/1996 Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,São Paulo, Brasil, para a presente edição/ Tradução Mônica Stahel

[2]Ernest L.Kirchnner Auto-retrato com modelo 1910,óleo sobre tela,149,9X100,3,Hamburgo.

[3] Sir J.John Everett Millais1896 Mariana.Óleo sobre tela, 56,7X49,5.Coleção Particular

[4]Geroges Rouaul 1936Cristo na Cruz.Aquatinta sobre papel.64,8X48,7.Coleção Particular.

[5] Graham Sutherland,Retrato de Somerset Maugham.1949.óleo sob tela 137cmX64cmTate Gallery,Londres

[6] 1897Óleo sobre tela,166X78.Musée Départemental du Prieuré,Saint-Ggermain- en- Laye

[7] 1736,óleo sobre tela 62X66.National Gallery,Londres

[8] 1880.Óleo sobre tela 159X93, Victoria na Albert Museum,Londres

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