Não sou

Existe/há uma vida que se esconde de mim mesma, e do outro. De todos. Ela some, não explico. Se me aproximo, desaparece. Por mais que eu tente ser eu, sou outra. Sempre outra que se interpõe, reage e se impõe …  Digo, digo, eu explico, aliso o tempo, aplaino o caminho, e me exponho …, desapareço. É outra. Não chego, não é nada. O ia se contraria neste ia que não vai … Já sou outra, escorrego, mergulho. E este par, este outro que me toca já se esfumaça sem chegar. A vida tem mesmo uma vida que se esconde em outra vida. Não sou. Por mais Eu que eu possa ser, não sou. E assim, meu querido, sou tua sem ser, e tu és meu, também, sem ser. Somos muito, muito de nós mesmos, tu e eu, e por isso não somos …  abril de 2017 – Elizabeth M.B. Mattos, Torres.

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12 comentários sobre “Não sou

  1. Tenho um poema visual que os recursos gráficos deste espaço não permitem reproduzir. Estou sem a arte final porque mandei-o para o Augusto de Campos. O Augusto o elogiou muito, chegando até a associá-lo a John Cage. Imagina ! Quero que o conheças um dia. O tema do poema é o EU. Pretendo colocá-lo na sala de meditação do ZENDO DO DIAMANTE.

    Hoje de manhã busquei na biblioteca do Instituto Zen Maitreya os livros solicitados pela minha filha. Leituras para o vestibular. E encontrei no meio dos livros do João Gilberto Noll várias correspondências dele que eu nem lembrava mais. Fiquei muito emocionado com a leitura e ainda estou muito afetado com tudo o que vem acontecendo nos últimos dias. Antes de sair de cena quero partilhar contigo um trecho de uma das cartas dele.

    “Rio, 25.3.85
    Celso:
    Estas linhas escritas na quero crer aurora brasileira não são bem uma carta, servem basicamen para te informar que uma das pessoas a quem dedicarei meu próximo livro é o Celso Marques. Tenho como norma informar previamente as pessoas a quem dedico meus livros. É como se eu não quisesse tomar ninguém de assalto com um gesto de afeto.” Lindo, não é ? É bem como eu me sinto em relação a ti.

  2. Longe… Perto… são conceitos ou noções relacionais de natureza espacial que pressupõem a perspectiva de um observador exterior ao espaço: o eu… Ou a consciência egoica. O objeto da prática meditativa é o eu. Mas quando vivencias esta prática, o dito eu desaparece. Perde progressivamente a sua aparente consistência e continuidade e separação ou exterioridade. A gente experiencia a descontinuidade. E à medida em que a experiência da descontinuidade cresce, os objetos mentais vão ficando cada vez mais separados e rarefeitos até que desaparecem completamente. Aí fica apenas o espaço sem observador. É a totalidade. indivisível, desprovida de objetos, noções e re-presentações ou discriminações. Em sânscrito é “animita”, desprovida de signos, inominável e indescritível. Meu primeiro mestre zen, o monge Tokuda, dizia que é como um cego-surdo-mudo tentando contar um sonho. Escreveste “Tão longe e, paradoxalmente perto…” É por aí… A arte e a contemplação estética nos levam a vivenciar estas experiências. Varias passagens tuas que li nos amorasazuis mostram afinidades com esta estranheza. Somos inseparáveis de tudo o que nos acontece. Na realidade, não existimos isoladamente. Bem, estas coisas são a minha praia…

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