DESCONEXÃO

Histórias de interdições do amor, cartas duplas de um duplo momento: dúvidas. Fio do ontem, e do amanhã sem o agora.  Duplo na desconfiança do primeiro movimento: “porque, geralmente, é o bom”. E nós não o consideramos bom. Recusamos, escolhemos o segundo momento.  É uma elaboração secundária, a inteligência não permite saboreá-lo. Imagem da realidade tal como eu preferia que fosse, e não imagem da realidade como ela é. Existe o espelho, estamos lá e cá, ao mesmo tempo. É no duplo que se localiza a interdição das primeiras experiências. Trágica impossibilidade do imediato. Desconfio do imediato, precisamente, porque duvido que ele seja realmente o imediato. Este imediato que se apresenta como o primeiro; mas não seria, antes, o segundo? Aqui está o sentido da reminiscência. Nada jamais é descoberto: tudo aqui é reencontrado, trazido novamente à memória graças a um reencontro. Em suma, para ser real é preciso copiar alguma coisa, repetir alguma coisa, fixar-se em algo já conhecido, real, pelo menos para nós.            E o segundo lance nos parece uma repetição de alguma coisa já vivida, inacabada, mas sentida, e, definitivamente vivida, presente na memória. Talvez estas emoções não sejam nada mais do que a desconexão. Abandono. A lembrança, luxo presente. Para a percepção do eu, do que eu sou, são úteis certas lembranças do passado mesmo  que se anulem no presente. Elizabeth M.B. Mattos

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3 comentários sobre “DESCONEXÃO

  1. Fiquei muito interessado, curioso mesmo, em relação à imagem do texto que ilustra o texto intitulado “Desconexão”. Trata-se de um trecho de qual obra ? Gostaria muito de ler o texto por inteiro, e não apenas fragmentos. Poderias fazer o favor de me fornecer a informação bibliográfica ?

    Quanto ao imediato, ao agora, considero que “o fio do ontem e do amanhã sem o agora” é impossível acontecer. “Trágica impossibilidade do imediato. Desconfio do imediato, precisamente,
    porque duvido que ele seja realmente o imediato.” A trágica impossibilidade do imediato é real na medida em que o imediato é concebido como objeto do sentido, vale dizer, como representação. Na realidade toda a tradição ocidental herdada desconfia do imediato. Mas esta desconfiança baseia-se na paradigma logocêntrico constitutivo da nossa tradição filosófico-religiosa. Hoje estou sem condições de abordar este assunto, São 3:45 da manhâ e estou exausto. Considero que o imediato não tem existência real, é um ente de razão que nos ajuda a compreender a realidade. Mas o grande equívoco da nossa tradição é o paradigma monista que concebe o que é último como sendo o resultado de atividades de síntese entre imediato e mediação. Quando existe uma descontinuidade radical entre os dois âmbitos. Mas isso é só o começo. Depois explicarei melhor.

  2. “Dizer o eu. Sem o pensar.” Isso pode ser o zen em estado puro. Ao menos tem um clima bem zen. Por isso me interessou. Mas, como tudo na vida, a interpretação correta depende do resto, de conhecer o contexto. Gostei muito daqueles fragmentos de texto da ilustração. Por esta razão pedi a referência de onde saíram. Quero conhecer este autor.

    O Mestre Dõguen (1200-1253), foi introdutor da tradição Sotô Zen chinesa na cultura japonesa, É o patriarca da ordem monástica à qual pertenço. Ele escreveu um texto clássico, intitulado Genjôkoan, no qual temos a seguinte declaração: “Estudar o eu é esquecer do eu. E esquecer do eu é ser iluminado por todas as coisas.” (na tradução do meu primeiro mestre, monge Tokuda Igarashi). Assim sendo, “Dizer o eu. Sem o pensar.”, pode ser um ato egoico impulsivo e condicionado ou então ser uma expressão de espontaneidade iluminada, desprovida da separatividade egoica. Depende. Temos presente nestas duas situações a relação entre imediato e mediação, mencionada no comentário anterior que fiz no teu amorasazuis.

    A letra do samba bossa-nova “O barquinho” (Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli), diz “Sem intenção nossa canção vai saindo deste mar e o sol…”, lembras ? É: esta dupla de compositores populares, intuitivamente, sabia das coisas… Kant, na Crítica do Juízo, definiu o juizo estético como sendo “conhecimento sem conceito e intenção sem finalidade…” E isso é, exatamente, o que eles dizem e fazem nesta música. E acho que é o que procuras e vives constantemente na tua relação poética com a arte e o quotidiano, com o mar e com a vida e com os teus afetos.

    Acho tuto isso muito lindo. Assim como vou gostando cada vez mais da beleza, inteligência e incrível sensibilidade revelada pelos teus escritos. Eles são fragmentos que vão compondo pouco a pouco a configuração do teu ser, que ainda não conheço pessoalmente.

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