Para GUSTAVO JOSÉ

Contar histórias não sei. Não tenho jeito. Não lembro, escorrego, dou voltas. Não chego. Se te escrevo, eu te sinto, então, eu te digo. Se escrevo volto ao começo recomeço. Explico. Olho para trás e te vejo. Posso dizer você. Você está perto. Estou outra vez na rua Viúva Lacerda, Humaitá, Rio de Janeiro. Muito perto o Parque Laje, logo o Jardim Botânico. Janela bem aberta. Vejo o Cristo Redentor. Aqui é pequeno. Sempre é pequeno onde estou. Do jeito que faço do jeito que é pequeno no teu abraço. No silêncio automóveis circulam na avenida. Ônibus e vozes na calçada.  Sou eu a conversar com Castanheda atenta A Erva do Diabo. Leio releio, sublinho, rasuro. Onde estarão aqueles livros todos?  Olho pro nada vendo enxergando tudo. De Krishnamurti trouxe quatro volumes de São Paulo, depois comprei outros apressada, e me perdia naquele dizer comprido de explicar e voltar ao começo nunca chegando ao fim. Eu penso que entendia. Noites em claro mergulhada nesta certeza  de incerteza que é o nada, mas sou Eu. Adoro lembrar da Ponte Aérea, das galerias de arte, da sopa no final da noite. Daquela pressa para chegar e trabalhar no dia seguinte. Desta juventude insone que me persegue. Até das freiras do Colégio da Providência, em Laranjeiras. Daquela menina/mulher que se imagina comportada segura no pequeno apartamento da rua Viúva Lacerda. Ou era na rua Vitor Hugo quando eu pensei grande me surpreendi adolescendo na André Poente com a Ramiro Barcelos …  Huxley me consome. Confundo tudo. Bebo mais água, muita água. Eu me importo com a lucidez. Passou tanto tempo!  Cabeças Trocadas de Thomas Mann.  Ou Demian de Herman Hesse. As Cônegas não me levaram para o Convento, eu me apaixonei, como as outras, pelo Frei Celso enquanto meditava naqueles maravilhosos Retiros. Entre palestras orações e silêncio. Missas gregorianas, latim, vozes e  mais muito silêncio. Mato fechado nas vizinhanças da escola e também amoras e pitangas. Não esqueço daquele avental com bolsos enormes cheios de pedras e folhas. E o silêncio, as nossas celas monásticas. Oitenta anos agora. Já cresceram filhos netos. Já não vou ao cinema, nem me debruço na janela. Nem vejo o mar ou sento em escadas. Ipanema tão longe! E eu gostava daquele mar. Voltava de ônibus com a roupa molhada no corpo atravessava a rua olhando sorrindo. E depois a Prudente de Morais e aquela sofisticação com cerejas naturais, muita música, muito embalo e tanto mimo! Agora já não como pipocas, nem fritas com cebolas. Ainda gosto de alho, de feijão com farofa. Adoro manteiga. Sou gulosa. Não sento mais naqueles sofisticados restaurantes da Lagoa Rodrigo de Freitas apenas tocando na sofisticada comida de aromas, nem uso veludo italiano camisas de seda, sapatos altos. Não falo francês, nem compreendo o italiano. Não vou a Buenos Aires, nem a Búzios. Não falo espanhol. Ainda ouço as canções francesas, e me agarro nos livros esquecidos da Gallimard. Não vou viajar, não gosto, não quero, mas Nova Iorque me chama, atrai. Vou me perder por não compreender inglês, mas sei de pessoas, de cheiros, de toque. Ouço vozes. De repente acordo em Berlim. Elizabeth M. B. Mattos, Torres.

2 comentários sobre “Para GUSTAVO JOSÉ

  1. QUE MARAVILHA bETH ,SEMPRE ME DEVOLVES TEMPOS LÚDICOS E LINDOS ,NOSSA ROMÂNTICA ADOLESCÊNCIA ,NOSSOS SONHOS ,CONSEGUIMOS REALIZAR ALGUNS ?NÃO SEI …..E AQUI ESTAMOS !!!OBRIGADO PELOS TEXTOS TÃO CHEIOS DE PRECIOSAS RECORDAÇÕES !!!

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