os mesmos a mesma …

CEU E TERRA

Está gelado lá fora. Acordei de estranhos sonhos … sonhos estranhos com pessoas diferentes como se a vida passasse para ser avaliada …  Estamos os dois com uma sede de confidências. Lembrei de outros amores como se os amores descessem para se encontrar todos na nossa terça-feira que já é curta. E quando me perguntas se estou acordada, é como se fosse um comando, eu acordo e espio o celular. Estou, respondi, mas tu já não estavas mais lá, …  E haverá o tempo de abrir os olhos na madrugada para conversar. Sigo escutando o mesmo disco de Keith Jarret e o piano me dá uma emoção/sensação única como se as cordas vibrassem dentro de mim. Claro que eu também ri bastante porque estou indo para Recife já faz um mês, e sempre é amanhã que embarco. É o meu processo, ou nada acontece, ou vou perdendo os pedaços, e corro o risco de não ir mesmo a lugar nenhum …  Repito: o importante de acontecer é dentro da pessoa. Interno e único e íntimo e prazeroso. O colorido e a voz e a intenção o medo se desfaz dentro do avião. Exupéry explica bem esse sentimento de espera que já é a chegada, ao menos o sentimento de …  De tudo me despeço e a tudo me antecipo como se a preparação já fosse a certeza deste ou daquele sentimento que não vai voltar. Não vou esquecer me esquecendo, é claro, porque estamos tu e eu neste jogo de ciranda que não termina. Amanhece com aquele brilho de luz que chega não sei bem de onde. Lembro dos amores passados, mas afinal sempre é o mesmo amor. Vai nos acontecer de contar a mesma história porque as lembranças ficam assim amarradas na mesma tensão, ou mesma importância, e somos sempre os iguais / os mesmos a nos repetir … os mesmos. Releio as cartas que escrevi faz tantos anos para o primo e assimilo / entendo a ideia o engraçado deste sentir tudo outra vez. Os sentimentos são atuais e eu tinha dezoito anos hoje setenta, qual a diferença? …  São os mesmos, nunca saíram de dentro de mim. Esta seria a história. O tempo o tempo o danado do tempo nos devora, mas nós não saímos do lugar nem de dentro de cada um, estamos agachados, escondidos, espiando, como digo sempre, espiando. Aquele noivado rompido, aquele abandono quase na porta da igreja se repete liturgicamente dentro de mim. Tenho sempre que terminar, fazer uma tarefa que nela mesma não se termina, como se o processo fosse o mais importante, fosse ele próprio a essência. A vida é mesmo assim, importa a caminhada, nunca chegar. Mas parece que a pedra vai rolar como castigo, e vou ter que carregar outra vez, tudo igual. Acontecer para terminar. Penso que estamos os dois carentes de atenção, mas essas carências não são o amor, o amor (tu) você está a procurar nas salas da sua casa, e desnorteado quer de volta o que não é mais. Penso nos trinta anos como uma condenação. É claro que não é condenação, mas vitória. Sucesso. Então ficarei do lado de fora desta história. Não posso esquecer que você não vai se jogar no mar para chegar até a ilha …  Não vai querer perder nada do que é seu. Nadar e segurar e carregar ao mesmo tempo … difícil!  Não saber nadar não é a boa resposta, nadar é mexer braços e pernas para não afundar … como caminhar é colocar um pé na frente do outro. Amanheceu. E já são sete horas. Vou passar um café, e me acordar. Torres, junho de 2017. Beth Mattos

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