ele pisa na grama, pisa nas flores

“Primeira Carta

Pense no quanto você não conseguiu prever o que aconteceria, meu amor. Quanta infelicidade! Fomos traídos por falsas esperanças. A paixão em que você depositava tantos planos de alegria não lhe causa hoje senão extrema angústia, só comparável à própria crueldade da ausência que ela mesmo provoca.”(p.17)  Mariana Alcoforado, Cartas de Amoro , Editora Imago, 1002

MURANO Itáfia foto Marina Ppeifer

Murano, Itália. 2017 foto de Marina Pfeifer

 

F. A. Travassos

Recife,

Perto do Capibaribe,

10 de junho. 2017

Meu querido,

Escrevo todos os dias. Não é saudade da voz do olhar nem da ausência, mas saudade de mim mesma. Saudade distraída e atenta, sonolenta, mas acordada. Coloquei cravos no vaso de Murano. * Debruçada na memória releio as cartas que mandas de Longéia. Sinto e pressinto. Não existes, eu te invento, e eu te amo de amor assim mesmo, … e assim mesmo inventado eu te leio neste papel feito de azul. A luz ilumina o quarto. Depois de dez ou oito dias com chuva e chuva o sol, sinto frio, não tão frio, mas ainda assim mesmo frio, mas o rio se ilumina. E a grama do jardim fica verde. E o sono demora para chegar, e as notícias do Brasil são as piores possíveis, entristeço, mas não digo nada, já não faz sentido dizer qualquer coisa, nada muda/ou se transforma, tudo fica … segue a loucura de revirar/reinventar o absurdo. O picadeiro do circo tomado. Lembras do poema daquele que diz ele pisa na grama, pisa nas flores arromba nossa porta e … porque não dizemos nada este invasor mata/destrói, … não é assim o poema, mas é este o dizer: o nada nos elimina. Então eu danço, danço todas as tardes, escuto música, e me debruço na janela, a janela do nosso quarto embora todas as outras estejam abertas … escolho a nossa. E escuto o silêncio povoado de memória e papel. “Quando o barco perde a praia quanto tudo diz adeus e se apaga a luz do céu. Histórias que não voltam mais…”. Eu te beijo, eu te abraço e também não digo nada, espero esperançada que voltes logo, e me acordes.

FALANDO LINDA braços abertos

* Em 1291, o prefeito de Veneza, Itália, ordenou que todas as fábricas de vidro mudassem para a ilha de Murano para prevenir que possíveis fogos das indústrias afetassem a cidade de Veneza.[1] Desde então, o vidro de Murano é reconhecido por sua beleza e cor.

O VIDRO NO FOGO

A.M. Cailleteaux

Croisset,

perto de Rouen,

4 de junho. 1857

Senhor,

A carta elogiosa que me escreveu faz com que seja um dever responder francamente sua questão.

Não, senhor, nenhum modelo posou para mim. Madame Bovary ‘’e uma pura invenção. Todos os personagens deste livro são completamente imaginados, e Yonville-l’Abbaye é uma região que não existe, tal como Rieulle etc. O que não impede que aqui na Normandia, queiram descobrir em meu romance uma multidão de alusões. Se eu tivesse procedido assim, meus retratos seriam menos parecidos, porque eu teria em vista as personalidades, e eu quis, ao contrário, reproduzir tipos.

É uma das mais doces alegrias da literatura, senhor, essa de despertar simpatias desconhecidas. Receba também a manifestação da minha. Com minhas saudações. (p174) CARTAS EXEMPLARES, Gustave Flaubert, Organização, prefácio e notas: Duda Machado. Editora Imago, Coleção Lazuli.

 

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