LIZA Eliza liza beth iza

Dividimos categorias nas nossas relações afetivas. Quando jovens queremos amor. E os amores atropelam a vida: misturados, sobrepostos como roupas de vitrine: blusas sobre camisetas, mantas, casacos sobre saias sobrepostas em volume. Moda no acúmulo de graça. Sim, namorar, beijar e abraçar graça. Graça de estar vivo. Então, nós mulheres atropelamos o amor em conversas confidenciais, intimistas. Atropelamos o amor com vinho e morangos. Atropelamos com ciúmes e lágrimas. Atropelamos com tapas e beijos. Tudo o ser amado e amante escuta, gosta, cheira e aperta, acha graça nesta graça. O amor dos vinte anos é assim em camadas coloridas, turbulentas, ferventes. Depois vem o desejo de confiar, excluir, engolir o amor todo e escondê-lo lá dentro na caverna gulosa. O outro não é da vida, mas propriedade exclusiva. O outro não é parte da rosa desfolhada, mas, único. E deste único ficamos vazios, e depois nos apercebemos do vazio de estar velho. Ficamos nus. Sem roupa e sem cor, ao natural esquecemos que ainda é vida a vida. É vida mesmo sem o amor amor aquele já gasto pelos jovens. É vida na lágrima e na febre. É vida na saudade. É vida para se fazer. Tudo abastece a chama de amar o amor: olhar o rio o mar as flores. E o céu as árvores varrer a casa pintar bordar. Escrever e consertar …. Amar é sentir a vida na tristeza na raiva na surpresa e na luz.

Ficar velho é amar mais e desordenadamente.

“…,não feliz não, isso nunca fui, mas desejo que a noite não acabe jamais nem volte o dia que faz os homens dizerem: Vamos, a vida passa, é preciso aproveitar. Aliás, pouco importa que eu tenha nascido ou não, que eu tenha vivido ou não, que eu esteja morto ou apenas moribundo, farei do jeito que sempre fiz, na ignorância do que faço, de quem sou, de onde estou, se é que existo. Sim, tentarei criar, para tê-la em meus braços, uma pequena criatura, feita à minha imagem, não importa o que eu diga. Vedo-a malfeita, ou excessivamente semelhante, eu a comerei. Então ficarei sozinho por um longo tempo, infeliz, sem saber como deveria ser minha oração, nem para quem[1]

Depois de Beckett eu já não sei do que Liza está escrevendo. Sobre o amor? Elizabeth M.B. Mattos  –  Rio de Janeiro, 2009.

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[1] Beckett, Samuel. Malone Morre.

 

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