amor se arrasta

…, leio devagar, tão devagar! Não leio, eu me arrasto pelo livro. Quando falo, falo muito; eu digo depressa, atropelo as palavras. O que tenho para dizer salta. Quando/ ou se me calo, não digo mais,.. bem é porque estou esgotada, exausta.  Estar com a pessoa, conversar tem essa característica da rapidez, certa pressa para concluir, terminar, encerrar. Se colocar logo do avesso.

Estou lendo o primeiro livro dO Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell, como se fosse um soluço, um parágrafo sem conexão com o outro, vou espicaçando o livro, rasgando uma página depois de outra. Vira uma franja: “Sempre nos apaixonamos pelo objeto do amor de quem amamos.” desta frase uma viagem (cobiçamos até o perfume daquela camisa) …, outra: “Na verdade, Justine não era humana – não podemos considerar humano alguém completamente dedicado ao próprio ego.” E já estou a pensar naquela história de que não somos o que somos, mas nos submetemos ao jogo do ego… (respiro) Ou quando ainda na mesma página escreve: “Nós que viajamos demais, que amamos demais: nós que – não direi sofremos, pois através do sofrimento sempre reconhecemos, nossa autossuficiência e compreendemos quão tênue é a relação entre amor e amizade.”

Enquanto leio repenso a vida ela mesma, encontro, desencontro. Se amor foram, ou não foram, …afinal, seguir em frente, pode ser apenas, seguir. Dou-me conta que nesse vagar refaço o traçado de sentimentos perdidos/escondidos. Tempo e vivência/sentimento em experiência paralela. O livro conta uma história. O livro escreve e descreve um sentimento ardido. Ora de um lado, ora do outro, e o painel faz parte de tantos pequenos pedaços que me pertencem! Então posso ser eu mesma, ou tanto Justine como Melissa, … ou feito boneca de pano, costurada / montada por/com retalhos. Observo. No tempo de dizer e escrever reafirma o texto: “O amor é bem mais verdadeiro quando surge simpatia em vez do desejo, pois deste modo não deixa feridas.” O desejo atropela! E o dito amor armado  atento e esperado faz sangrar, pinga …e, nem sempre termina. Fica aquele amor da vida inteira, intacto. Se arrasta, andrajoso na carência de um querer mais que não se esgota, não termina. Começa quando […] “tomados pela sensação que irrompe naqueles que encontram alguém para compartilhar seu fardo de preocupações inconfessas.” (p.192-193) Vou devagar mastigando. O filho sublinha, não queres escrever – és leitora voraz: entristeço. Na verdade tudo e muito  e tanto já foi dito sobre o amor. O que de novo, diferente tenho eu para contar? As mesmas histórias, sempre as mesmas histórias. Inventar significados, pontuar diferente, mas vou dizer de amar, e não amar, confessar, esconder, fugir, correr, sangrar, chorar. E tudo foi mesmo dito. Apenas  peço perdão. Peço desculpas. Avanço e recuo. Assim mesmo escrevo. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

muro e livros

pedaço do muro de Berlim, livros do curso de francês … e, uma saudade vibrando, atenta

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