mimo ou, pequena alegria

Do tempo que estive no internato ter um quarto (cela) perfeito; o exclusivo num enorme dormitório onde as vinte e quatro, ou eram vinte e cinco internas, dormiam. Muito pouco nos separava. Penso que esta questão do particular e da independência se fecha com o exclusivo interior de ser eu para mim mesma. Era obediente (ainda sou embora transgredir possa ser uma tentação contínua), seguia regras. Aceitava limites: eu era eu com o que imaginava ser eu. Fiz amizade com Madre Maris Stella que, pouca adaptada ao Rio Grande do Sul, colava em mim a identidade paulista. As cartas reafirmam esta origem cosmopolita que ela me emprestava. E cúmplices, muitas vezes, passei as horas do chamado Recreio Grande enfiada no meu quartinho a ler e a escrever infindável diário. Na contramão do permitido. O recreio da noite com música, e quase sempre festivo, eu gostava. E nós dançávamos. Gostava do café da manhã, das missas gregorianas que não eram obrigatórias. Para mim o ritual fortificava meu dia: arrumar a cama e descer para o culto. Sempre gostei de acordar cedo. Janela aberta inverno e verão. Natureza e temperança. Eu me sentia integrada. Estremece o prazer desta memória o enxoval: aventais vestidos, blusas comportadas, fitas que nos identificavam por série/ nível de estudo. Comecei usando a fita azul. Ginásio. O grande encantamento, as camisolas de cambraia ou linho com rendas inglesas: mimo da minha mãe. O meu pequeno luxo de menina. Viver tinha o sabor da liberdade. Não entendo bem, ou não tenho a resposta certa para tanta harmonia. Eu sentia. Gostava das caminhadas entre os pavilhões, da jardinagem, detestava a costura, mas as aulas de culinária me ensinaram o básico. E as aulas de piano intermináveis, inúteis. Apenas sei solfejar.  Nem o violão, nem o piano corrigiram o desafinado, mesmo assim o prazer da música se acomodou no melhor lugar dentro de mim. Os livros também. Escrever era oficio ingrato, nunca fui boa aluna. E as capas coloridas de caderno -diário começaram a ter número.  Fico a imaginar o que me atraia para pensamentos intimistas e confidenciais. Não sei. Somos tão iguais como seres humanos, uma história que se altera agarrada numa audácia ou numa tristeza, mas quase sempre a mesma com algum nenhum ou pouco evento a destacar. Herói heroína se veste com particularidade de sonho espevitado. O meu era singular singelo: encontrar grande amor e filhos e jardim e quintal.  Naquele tempo desconhecia a magia de morar perto do mar. Na escola os retiros com Frei Celso, ainda lembro. Confissão comunhão. Convicção e alegria. Também fazíamos trabalho social. Voluntário. As aulas matinais do currículo eram obrigatórias, mas todas as outras atividades, opção. Escolher, mesmo no melhor dos mundos possíveis [1], um exercício diário.

Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018 – Torres

Referência a novela de Voltaire. “Até ser expulso de um lindo castelo na Westfália, o jovem Cândido convivia com sua amada, a bela Cunegunda, e tinha a felicidade de ouvir diariamente os ensinamentos de mestre Pangloss, para quem “todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis”. Google

  1. Apesar da crença absoluta na doutrina panglossiana, do primeiro ao último capítulo, Cândido sofre um sem-fim de desgraças: é expulso do castelo; perde seu amor; é torturado por búlgaros; sobrevive a um naufrágio para em seguida quase perecer em um terremoto; vê seu querido mestre ser enforcado em um auto da fé; é roubado e enganado sucessivas vezes.
    Cândido só começa a desconfiar do otimismo exacerbado de seu mestre quando ele próprio e todos os que cruzam seu caminho dão provas concretas que o melhor dos mundos possíveis vai, na verdade, muito mal.
    Cândido ou o Otimismo é um retrato satírico de seu tempo. Escrito em 1758, situa o leitor entre fatos históricos como o terremoto que arrasou Lisboa em 1755 e a Guerra dos Sete Anos (1756-63), enquanto critica com bom-humor as regalias da nobreza, a intolerância religiosa e os absurdos da Santa Inquisição. Já o caricato mestre Pangloss é uma representação sarcástica da filosofia otimista do pensador alemão Gottfried Leibniz (1646-1716).
    Antecipando o sucesso desbragado e a carreira de escândalo do livro, Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet, assinou a obra com o enigmático Sr. Doutor Ralph.
    P.S. Este abril com características de verão desdobra o tempo de ser eu comigo outra vez, esta coisa de rir e sonhar/ ou acreditar. E lá estou a ordenar, rever/ reler e voltar ou antecipar o amor amado. Não é saudade, porque ele sempre é nas suas tantas faces uma volta e uma ida. Ilustro:
    “Escrevo-te de pé, no correio, num fim de manhã de sábado e com pressa por 3 razões: 1) para que seja despachada hoje mesmo esta carta;2) para que chegue às tuas mãos; 3) para que te alegres e essa alegria ponha a prova o que me dizes sempre: ‘tuas cartas me alegram’. Como vês, escrevo –te só para te pôr à prova. Nosso amor não necessita desses exames periódicos, muito menos via postal. Mas a tua alegria sim. Temo que minha presença em tua vida tenha decepado (em parte) a alegria inata que extravasavas quando te conheci em agosto de 1994. São quase dois anos de desprendimento do otimismo quase Dr. Pangloss típico da Beth. Comigo, comigo ao teu lado, em parte perdeste a ingenuidade de te sentires feliz em tudo, até na desgraça. OU principalmente na desgraça. Mais que ‘ingenuidade’, devia ter escrito ‘inocência’, que é um estado de pureza absoluta […] comigo deixaste de ser a Beth e viraste Elizabeth […] ” 

    CONECTADOS DOIS SEMPRE DOISCONECTADOS sempre

    Uma velha carta que cruza uma ideia pensada hoje num rodopio de lembranças da Beth/ Elizabeth do tempo do internato do nosso ginásio …, esta alegria visceral mora comigo apesar dos pesares.

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