caminho aberto

Carta caminho aberto. Gosto. Deveríamos escrever ao menos uma carta por dia ao amado, também para amiga, para o irmão, para a tia, outra para a mãe, ou para o vizinho. Algumas vão para o correio, outras ficam na gaveta ou em baixo da pedra com outros papéis. Escrever significa que pensamos no amor. Hoje vou responder as cartas que chegaram ontem e antes de ontem. Claro! Também vou contar da Elizabeth Bishop que gosta de poemas e cartas. E.M.

Elizabeth: “Tenho pena das pessoas que não conseguem escrever cartas. Mas desconfio também que eu e você, Ilse, adoramos escrever cartas porque é como trabalhar sem estar de fato trabalhando. ”

Quem se dedica ou é profissional da palavra fica nesta ciranda de letras. Normalmente temos reações esquisitas: calar/ desaparecer/ inquietar/choramingar/ sonhar desejar/ brigar/ desamar e a tudo reagimos por escrito. Um vício. Como beber em excesso e todos os dias. Um vício. Assim é escrever. E.M.

“11 de dezembro de 1957

Caríssimo Cal: Não sei por que não consegui lhe escrever antes. Não é comum eu não conseguir escrever cartas, principalmente quando se trata dos meus correspondentes prediletos. Durante toda a viagem de navio, elaborei uma infinidade de cartas a você, cheia de ideias novas e profundas, mas elas se dissiparam no ar marítimo. Então, quando por fim chegamos (somente em 4 de novembro), foram tantas as complicações que não pude escrever cartas durante duas ou três semanas – quer dizer, cartas de verdade. Vivíamos indo ao Rio para tirar as coisas presas na alfândega – aliás, metade de nossa bagagem ainda está lá […] “

Cartas são pontes.  Atravesso a distância e mergulho nas letras para sair da solidão. Atravesso o silêncio escrevo cartas. Para o imaginário para o real para a saudade para a presença, para mim mesma senão sufoco. Eu respiro pelas cartas. E.M.

“Quais são suas fontes de inspiração Elizabeth Bishop:

Inspiração é uma palavra muito curiosa. Quando eu morava no   Brasil, tinha um escritório no alto da encosta de uma montanha com vista para uma cachoeira e a pequena piscina que se formava abaixo dela, cercada por um alto bambuzal. Quando eu receba visitas, algumas das quais tinham lido uma linha do que escrevi, elas olhavam para os bambus e diziam: ‘ Então é dali que vem sua inspiração! ’ Cheguei a pensar em pregar uma placa no bambuzal dizendo’ Inspiração’. Esse mistério que chamamos inspiração nem sempre pode ser localizado com precisão. Mas é isso que há de estranho e maravilhoso na poesia – você nunca pode prever quando, onde ou mesmo por que algo irá motivá – la a escrever um poema. Quando digo que um poema se apresenta de várias formas, é a isso que me refiro. Um poema pode ser inspirado por algo que aconteceu há vinte anos, mas até escrevê – lo talvez eu não tivesse percebido como aquilo tinha me emocionado à época. Acredito que é preciso confiar que os olhos e a mente estão constantemente registrando tudo, e é preciso ter paciência suficiente para que o resultado dessa observação se revele.

Livros: Uma Arte As cartas de Elizabeth BishopPoemas Escolhidos de Elizabeth Bishop e Conversas com Elizabeth Bishop

 

 

 

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