sem emprego

Porto Alegre 12 de outubro de 2004  – Porto Alegre  – Carta para Paulo Hecker Filho

Fiquei esquisita com a tua carta: és duro mesmo. Li e vou reler cada pedacinho para te responder, ou, quem sabe, apenas dizer outra vez o que eu sinto. Carta extravagante em impulsos de emoções-recreio. Tão completamente frívola fêmea sem ser gente. Péssimo. Fiquei em estado de alerta. Ninguém quer ser coitadinho, mas estou coitadinha. Escrevo e acordo. Ontem dormi lendo o teu último espetáculo. Alguma coisa conhecida, anotei as observações. Tudo é depois. Ler teu livro, ontem, nova lição: transpor as desgraças correntes. Depois. Necessárias culposas ou não. Trabalhar sério, depois. Escrever sério. Dar aulas sérias. Será que fui sempre fútil, apenas mulher? Agora, uma velha carente fútil, mulher? E depois? Escrever para o Paulo é ter com quem conversar. Assim eu me valorizo. USO? A cada carta recebida um ânimo novo. Mas se eu não merecer? Será que estou “me fazendo” como dizes no poema? Ou de repente achei mesmo tudo errado. Ou a vaidade queria que estivesses dentro de mim aplaudindo? Tu sabes como é, se confias menos, eu estaria me mostrando/exibindo. Preciso disso?  Sim, tudo está bem comigo. Por que não estaria?

Se a depressão me ameaça vou dormir. Espero a chuva. Nem passo pelo poema corpo e alma. Esqueço tudo. Vejo duas novelas dois jornais da noite. “Apenas queres mais”. Coisa mais simples e direta esta tua frase! Tu não queres mais? Assim gira a minha pandorga neste céu. Resolvi acordar e te escrever. Segunda tentativa, mas esta carta segue.

ENGRAÇADO ESTRANHO! Uma sacudida não esperada renova: és mestre. Conheces meu exercício diário de sedução. Alimentar a corte é bom, tens razão. O que é a vida real? Escrever, escrever. E a tal definição de solidão não explicitada …, a gata do borralho é isto? Quero a fada madrinha. Sempre fugindo e querendo. Freud explica? Mas, as tantas celulites, babados, pés de galinha superarão o desejo? Perdoa Paulo. Vou comprar um peixe vermelho para o aquário e estarei distraída concentrada nas voltas …. Desculpa a carta: o meu CARNAVAL irresponsável. Tu és uma das poucas pessoas sérias que lê e responde e pensa e perdoa. Quanto ao FARACO, a Ana leu o conto e interpretou tudo diferente. Sou mestra de ver e entender sozinha, autista. Sei lá se é bom ou ruim. Inventei a historia de descrever dentro do conto. E quanto a ZERO HORA eu não leio, não compro. Estou estudando para o concurso. Tenho aulas de manhã e de tarde. Igual angustia me estrangula. Beth Mattos

 

&

 

Relendo a carta eu me dou conta o quanto/tanto de complicado difícil foi ser despedida da Garagem de Arte. Desafio angustiante. A insegurança doeu. Era um recomeçar sem saber exatamente o início ou o ponto de partida. Medo pânico a ser controlado. A ideia de alugar o apartamento da Independência me pareceu solução, e morar com a irmã viúva de um casamento da vida toda. E … estudar seriamente e me preparar para um concurso público. Foi o que fiz naquele ano: estudar. Ganhar tempo. E.M.B.Mattos maio de 2018 – voltando no tempo.

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