beijo da escada

O beijo da escada. Descrever este momento, abrir a porta…Existem coisas que se faz, mas não se verbaliza porque estremece o equilíbrio necessário para suportar a vida. A palavra é volátil: pragmática ou traiçoeira? Projétil, força, permanência, desvio, contorno. A palavra escrita ou pronunciada efetiva. A história começa. Depois que mencionei o beijo, passamos a nos beijar sempre que nós nos pensávamos em escadas. As palavras fixam as coisas. Depois que foi dita, uma coisa sai da penumbra. Ali está ela – sempre. Há cinco minutos ainda não existia. Agora é uma parte de mim e de você. Assim escreveu Charles Morgan no romance A História do juiz. Foi como aconteceu conosco. Foi dito. E não foi amor, foi querer ser amado. A vontade de ser objeto de amor o fez escrever tantas cartas.

“Sim, eu me lembro. Foi junto à escada, próximo do elevador, na penumbra de uma tarde que está distante. Dois lábios se tocaram. Aconteceu sem palavra. Esse beijo talvez seja o início do romance que vivemos, sem presença física. Nós nos procuramos, nós nos apalpamos à distância, nos trocamos carícias. Escondemos nossos sentimentos, nossos desejos, na palavra reservada, nas reticências, nos subentendidos. Talvez seja este pecado que nos proíbe o encontro. Agora, teu cabelo voltou à cor antiga, natural. Gosto de te imaginar como antes. Lembro-te na transparência de tuas vestes na intimidade daquele apartamento, em Botafogo. Nunca ousei dizer o que se passava no meu íntimo. Contive-me sempre: foi timidez, foi respeito. Depois, havia entre nós (…) as crianças, a diferença de idade. Também imaginava nada significar para ti. Pensava que tinhas outro alguém no teu coração. Custa-me dizer isto, mas se falo, devo ser sincero na minha confissão.Tu evocaste o beijo trocado. Essa evocação quebrou o selo do nosso segredo. Talvez eu tenha dito o que não devia dizer. Se a palavra ofende, rasga esta carta e perdoa. Trabalho num quadro de grande formato. São três figuras. Há nelas a solidão de sempre.”

2 de junho

“Quando jovem, sempre me comovia com o toque da sirene da ambulância, porque nela sentia a solidariedade humana. Agora, na velhice, o que mais me comove é o toque do silêncio. Hoje ele soou dentro de mim: morreu meu querido amigo (…). Estou profundamente triste, jamais o esquecerei. ” Iberê

Existe um ponto final. Mesmo no imaginário a história se fecha com começo meio e fim. Há que ser assim nesta vida da pressa do digital do longe. E choramos da mesma forma. Por que somos fantoches, bonecos, personagens de uma história inconclusa, sem sentido, fantasiosa. Inexplicável. Viver tem esta ironia. Depois, é preciso ter consciência: já vivemos mais tanto do que temos de anos pela frente então somos cautelosos maduros e rígidos. Igual eu choro e lamento o gesto encolhido: rejeição sempre aperta. Junto o passado e com o hoje e me dou conta que sempre aconteceu comigo o que nunca aconteceu -, a vida nas beiradas da possibilidade, nunca real. Sempre fantasia. Patético sentimento de incompletude.  Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

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