sem destinatário/ da autobiografia

Rio, 11 de março …, tento organizar a viagem, mas dói por dentro. Sinto medo. Medo da nova cidade, das pessoas. Medo da dependência, e de perder a liberdade. Ainda não escrevi para o pai e para a mãe, não dei a notícia: ficarão estremecidos. Acertei os primeiros e mais difíceis passos com G., iniciei a despedida. As crianças? Como todas as crianças veem diversão/expectativa. Mudar significa aventura férias. Não imaginam ou sentem como definitivo. Aliás, a vida pouco nos pergunta quando somos crianças. Em julho irei acertar detalhes, e se vender o que preciso, e conseguir trabalho mudarei antes do final do ano. Estremeço. Escrevo no intervalo. Estou sobrecarregada. Não sei levar fardos por tanto tempo …, é como se estivesse sem ar. Literalmente sufoco. Neste desespero fico longe do principal e do que deveria ser o mais prático: aumento de salário, valores. Ou mesmo não sair do Rio. Sou inoperante, uma sonhadora e três filhos para criar. Tento estar tranquila ah! Se fosse florido este caminho! Preciso acreditar que vou conseguir. O certo é que preciso entregar o apartamento. E.M.B.Mattos / Beth

Eu e o quadro do Carmélio Cruz

Meu amigo:

Pensei nas contradições do homem que se descobre em processo. Todos os passos importam, imobilidade também. Estou tendo dificuldade de ser eu mesma contigo. A ideia de corresponder a imagem que possas fazer de mim atrapalha. Fantasia minha. Talvez não tenhas imagem nenhuma. Ideia nenhuma, parâmetro nenhum, … fico querendo entender meu sentimento, e parece confuso. Tu és direto transparente, objetivo. Eu dou voltas e voltas e voltas. Não vou chegar a lugar nenhum. É preciso alcançar o limite de nós mesmos. Conflito e tempo de longe. Longe. Queria te sentir perto. Não importa. A cada pessoa seu quinhão seu modelo sua barreira. A timidez te fez feliz e infeliz feliz. Eu distraída feliz. Dispersiva e desorganizada estabanada e feliz. E uma carta ponte, ou uma ponte que se diz carta.

Amoroso sim. Eu gosto de pessoas/gente, e gosto de doar …, nem tem valor como conquista porque é da minha natureza conciliar reunir estabilizar ordenar. Estas qualidades (acho que são qualidades) disponho para os outros. Agregadora irmã  paciente. Confesso, estou mais dura impermeável ressentida agora. Não aguentei o casamento nem a passividade nem o não fazer nada nem a tristeza nem a apatia. Penso neste monólogo e me vejo cruel. Aceitar. Apenas aceitar. E me sinto culpada por não ter ajudado. Por ter desistido. Mencionaste o dinheiro. O dinheiro não me dobrou. Posso trabalhar/sempre poderei cuidar de mim mesma. O muito sou eu. Não me submeteria a um mau casamento por uma boa situação. Foi bem complicado. Eu tinha apenas 24 anos e três filhos: um de cinco anos um de três anos e um de um ano. Difícil. O desabafo. Beth/ Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

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