carta extraviada

Constituição Federal

Art.5

XXXIX

Não há crime sem lei anterior que o defina nem pena sem prévia cominação legal;

O que achas disto?

E deste inciso?

II Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei;

Que tal?

E a mentira que eu vivo? Onde eu a coloco? Tu, tu tens que continuar o moço que és, aliás, recebi este bilhete de uma amiga especial, colega lá do tempo das cônegas, segue na íntegra, ela mora em Fortaleza: ” […] tava olhando a programação da TV  Cultura (é que escuto a rádio Cultura FM de SP enquanto trabalho), e olha o que achei … ! Esses contos da meia noite são ótimos!  Contos da Meia-Noite  – Quinta, dia 03, às 00h00 – Walmor Chagas interpreta Oração da Noite, de Paulo Hecker Filho. O texto retrata a decadência do ser humano pela ação do tempo, a consciência e a dor de se tornar um ‘peso morto’. Reflete também sobre o desabamento dos valores e as limitações físicas e intelectuais. “

Como vês a tua vida continua, e não tens este embate com a mentira, com esta representação idiota que as pessoas fazem ao se acotovelarem aí pelas ruas. E a preocupação de viver e morrer  está dentro de cada um. É mais ou menos assim, escrevi hoje para F.T.  […], e pensei em verdade, no amor puro, na entrega, na paixão. […] Estou lendo O homem amoroso de Javier Marías. Também o livro interessante, biografia de MARIA MARTINS (lá na galeria eu tinha no computador, como tela de proteção, duas esculturas dela – e, ninguém sabia quem era. Quanto ao Marías encantada com as palavras o escrito o jeito e … Queria estar dentro dele, ser ele (o escritor é claro) só um pouquinho. Gostando.

Será que existe verdade? Existe mesmo o mundo com uma verdade?Podemos confiar? Apoiar a mão, dar o braço ou quanto mais caverna para  vida melhor … Pois é, ligou no meio da tarde o A. querendo fazer um livro que não passasse pela Fundação Iberê Camargo, e fosse uma biografia – , ou depoimentos sobre Iberê. Escutei. O que dizer? Nada. Ironia. Saudade. Pedaços. E eu voltei a pensar: somos antropofágicos. O melhor é seguir os instintos e a regressão para a condição de homem-macaco, será a salvação, tenho certeza. Estes primatas eram melhores, são melhores. Quero que a vida aconteça dentro da possibilidade possível daquilo que penso acredito ser o bom. O fazer  se acomoda no bom sentimento produtivo. Busco sonho no talento que me foi entregue e retiro, aos poucos, da energia possível a COISA o fato o criado a criatura construída.  O que é esta coisa? Sou e quero como Deus ser aquela que participa de um momento, de de uma ideia. Esparramo cor, busco possibilidade de…,  pessoas são apoios escudos objetos de pesquisa quando eu mesma me faço suficientemente importante: isto é verdade? Não, tudo mentira.

Mas, o que são as verdades? E o que A. espera que eu escreva? Jovem artista cheio de projetos. Justo o meu morto projeto sobre Iberê. Será amigo? Chegou o momento de escrever logo tudo que sei? Por que não contar das pombas? O meu par de rolas que vem me visitar todas as manhãs … Uma delas morreu, eu acho, tenho visto apenas uma. Os pássaros são fiéis nas suas parcerias. Acendeu em mim, outra vez, aquela vontade de reagir. Não ficar preocupada com o detalhe, o pequeno, apenas contar o que sinto e como eu sinto: gritar do mesmo jeito que aos cinco anos esparramava tinta no papel. Escrever. E já é tarde, eu sei. Tarde para escola galeria, e para pessoas. Contar o que vivi ou mesmo inventar, ou fazer de conta usando as forças de como vejo o mundo. Espantar o medo: inventar mentir. Posso apenas mentir. Dizer das raivas, dos desencontros, dos enganos e das falsas fantasias. O que é, afinal, o medo? Usar o brinquedo / a invenção. É invenção pura: é lúdico. Não é a ciência empírica, mas a vida a ser comprovada. A maçã mordida pela mulher no paraíso que inventou: a mulher que leva o homem como numa canga pagando o castigo da cobiça e pesando com o peso dele. Dizer nada, dizer tudo. Contar estas biografias programadas como a História escreveu a História, e a Geografia? Quem alcança / sabe das mutações da geografia?

Outra vez acordou dentro de mim o discurso velho e manso em que estes arrimo que busco. Não, – não podes me largar agora, nem um  pouquinho de sobra de tempo tens que não seja todo meu. Eu te preciso. Eu te preciso. Eu te preciso: nada de dizer “A ciência é implacável: depois dos sessenta (…)”, eu te preciso com limitações, desarranjos múltiplos para citar até os cerebrais. Nada disto. Agarra-te firme na cadeira, vai tratar na primeira caminhada do meu perfume, meus livros, lápis e sedas, depois conversamos. Tu és as minhas possibilidades além da estampa, da figura de mulher, eu sou gente porque tu escreves para mim. Vais fazer mais do que eles, os médicos. Vais ficar aí, esperando que eu faça o que tenho que fazer. Devo ter uma missão, não devo?  E isto segura o que possa haver de possível dentro de mim como criação: o fazer. A necessidade de dizer. Por isto eu amei  Lispector, Anaïs Nïn,  Canetti,  Lessing, V. Woolf, IBSEN e todas as mulheres ou homens que se debruçaram neles próprios, Kafka Gide, e conviveram apenas com as pessoas que de uma forma ou de outra acreditaram neles. Nada mais vale neste mundo do que este esmiuçar de quem somos nós. O acovardamento é que nos paralisa. Mas, queremos dividir. Isto é demais? Paulo, espera por mim.

Tenho que estudar o REGIMENTO. A prova é neste domingo. Reza. Faz por mim . Fica quieto, aliás, faz todas as compras, bem bonitas. Vai ser tão bom! E me espera, por favor.

9/3/2005 Porto Alegre

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