perto do perigo

Invernoso cinzento. Como os domingos da infância, a descascar laranja, frente ao fogo, aconchegada em sonhos. Criança, protegida de mim mesma. Se o príncipe aparecer e me olhar e se apaixonar e me levar no amor, eu vou. Então, serei grande forte poderosa. E serei feliz para sempre. 

Salman Rushdie: “Todos os anos por eles vividos, de desejo, amor, casamento, filho, infidelidade (sobretudo dele), divórcio, amizade estavam no abraço que ela lhe deu naquela noite”. (p.22) Joseph Anton Memórias.  Estou neste abraço. Um livro dentro do outro, uma história dentro da outra, um sentimento dentro do outro, e não sou eu. Letras. Livros: és tu a me perseguir. Vou volto, estou. Corro, saio. Esqueço, depois lembro. Uma condenação. Castigo. ‘Eu penso muito e deixo cantos mágicos para flutuarem sem riscos de perdas’ ou ‘ na nossa idade a profundidade está na alma e a vida tem que ser leve e as andanças superficiais, nada em exagero ou profundo. Fortuito, esporádico e seremos e serás o que queres ser’.  E eu não sei o quero ser, fico fragilizada na fantasia das tuas palavras.  Lembrei do filme de Stanley Kubrick -, De olhos bem fechados. Perigosa fantasia. O que se diz ao outro gruda, fica como cicatriz. Sussurraste ao meu ouvido: Vê onde escondeste a tua vaidade, fulgor, brilha na intensidade de fazer o tempo voltar para trás’ e ‘ volta a ser aquela que caminhava distraída e acabou rainha, não decapita teu reinado’. Não deverias ter dito. Carrego solidão (e preciso esclarecer, sou povoada por dentro, solidão tem um gosto de amargura e tristeza, talvez não seja exatamente isto, mas a escolha de morar/ viver sozinha porque desapaixonei, ou porque egoísta esqueci, ou as portas se fecharam. Claro que eu vou perder ‘a sensualidade de envelhecer junto sem vergonha da nudez’, como eu te perdi, ou como sonho, acordei, …) E não pensar/ imaginar que poderias viajar ao meu encontro para me despir, lentamente, levando cinquenta anos até terminar…, seguir pensando assim deixa de ser solidão, vira sedução. A palavra atravessa o corpo em gozo. História travada. Incansável e interminável confidência. Fantasia naquela taça de vinho, e no teu abraço. Para sobreviver a tentação fico imobilizada. Lento processo ao esquecimento. Se as escavações chegam ao corpo, bem, às vezes, já é tarde demais para o amor … Espero este entardecer e o sentimento desaparecer / morrer. Não haverá mais corpo não haverá sentimento nem desejo. Feliz e completo N A D A. Sem lágrima. Quando estou a me afogar fico a me debater até o final, até a exaustão. Insisto, grito. Engulo água, agito pernas e braços insisto. Na exaustão, então, eu me afogo com o sentimento. É pela imobilidade que morro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018

Um inferno secreto, povoado por fantasmas de amores perdidos, de antigas personalidades … enquanto outra metade faz suas piadinhas trocando olhares maliciosos. A menos que sucumbam também. ” (p.189)

“ E começou então um período que, quando depois pensava nele, parecia um país em que havia aportado por acaso, que nem sabia que existia, um lugar de encantamento, uma paisagem como de sonho, com sua atmosfera própria, forte, com uma língua que se conhece apenas em parte ou que foi esquecida. […] 

Mas não havia como duvidar, quando estavam juntos havia um prazer, um bem-estar, um a diferente da vida cotidiana. Um lugar encantado onde todo podia ser dito. E não era o caso de duas pessoas com grandes curiosidades uma pela vida da outra. Se ela não estava muito interessada na dele é porque não conhecia nada semelhante […]  

Quando as pessoas contam a própria vida, quer dizer, a própria história -, geralmente, não revelam muito de si mesmas. Não de fato. ” (p.61-62)

capa do livro da LESSING

 

Apaixonar-se é lembrar que somos exilados, e por isso é que o sofredor não quer ser curado, mesmo quando grita: ‘ Não posso suportar esta não-vida, não posso suportar este deserto.”(p.360)

ou

” Resista, resista. Logo, logo uma porta vai se fechar dentro e você, porque isso que você está sentindo é intolerável. A porta vai ficar lá fechada a vida inteira: se tiver sorte, não vai se abrir nunca, e você não vai se lembrar da paisagem que habitou – por quanto tempo? Mas tempo de criança não é tempo de adulto. Você vive numa eternidade de solidão e dor, que é um verdadeiro inferno, porque o inferno é essa falta de esperança. Você não sabe que a porta vai se fechar, acredita que isso é que é a vida e que assim tem de ser: vai ser sempre mal-amada e vai ter de vê – la amar aquela pequena criatura que você tanto ama porque acha que, se amar o que ele ama, ela acabará amando você. Mas um dia vai entender que não importa o que faça, por mais que tente, nada adiante. E nesse momento a porta vai se fechar e você estará livre.” (p.357)

As citações são do livro AMOR,DE NOVO de Doris Lessing – tradução de José Rubens Siqueira – São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

As histórias a serem contadas são todas perigosas e reais, e este danado novo encontro protelado se derrama no dia que amanhecemos juntos, adormecidos um no outro. O desejo se aquece, e volta para nós dois. Por isso te amo. Sigo distraída a caminhar ao teu encontro. Beth Mattos

lessing escritos com minha letra

 

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