grande fogueira

Domingo. Outono. Arrumações na preguiça, curiosidade. Vontade de escrever. Minha amiga querida, comecei a carta, e logo bateram, tocaram.  Ontem, antes de ontem, mandei do jeito que estava. Vou assim passando de um lugar para outro, sem foco. Lavo louça aspiro tiro o pó. Arrumo a cama, leio dois parágrafos, escrevo outros dois. Olho pela janela. Tomo um banho. Volto. Caminho com a Ônix, volto. E o dia terminou. Esquisito. E …, estou atrasada nas notícias, nos afetos, nas minhas intenções. Esta ansiedade me surpreende: tudo misturado, remexido, não apenas gaveta, e armário. Livros. Revistas. Louças. Fotografias. Queria ordenar a casa, deixar tudo catalogado. Jogar fora o que não serve. Como que preparar esta papelada pro amanhã. Se eu morrer ninguém vai conseguir achar nada. Fogo. Uma grande fogueira. Esquisito. Na verdade nos preocupamos com o depois. A vida se tornou apertada como um novelo de lã descuidado … Haja paciência e calma! Nada de tesouras, ou puxões. Há que se conseguir devagar. O quanto devagar?   Por que não se posso ser livre, solta e produtiva! Não. Vou arrastando o me fazer, o tempo. A casa de vidro? Não, como se pinicasse, espetasse. Sei lá. Entrar de costas. Bicho esquisito o ser humano! Esquisita compulsão.  Viajar sair ir e voltar é para recuperar o tempo perdido. Perdido em quê?  Suponho tantas coisas! Deveria me preocupar com o meu nada, meu vazio, meu difícil, minha língua ferina, minhas mágoas, esquisitices. Este marasmo difícil! A.C. não consigo acomodar as coisas, nem o pensamento. Os móveis, as caixas da L. seguem empilhadas, o apartamento se aperta nesta confusão! Assim mesmo ajusto aqui, ali, troco as tomadas, a porta do box, compro panelas. Leio. Espero. Caminho. Gavetas prateleiras, eu mesma, a se reordenar Que desordem! O J. é o meu ponto… As seis horas da manhã fazemos uma caminhada curta enquanto o ônibus não chega, no fim da tarde, ele vem me ver. Chega às 18 horas. Adorando a escola. […] Gosto do sossego, do meu tempo. Estou a recuperar espaço. […] O telefone toca. Vou terminar logo.  Um beijo. Desleixada, eu me sinto. E as questões políticas, inflação, desgoverno me assusta.  Feridas remexidas! Saudade amiga.

Beth, fico pensando o lugar que o J. ocupa na tua vida… isso que disseste da vida suspensa entre os dois pontos em que encontras com ele… pensa mais sobre isso.  […]. E aí volta a questão da mudança para Porto Alegre. Como se nada pudesse ser resolvido por causa do jeito que os fios se entrelaçaram: um puxão e tudo vem ao chão. A vida, assim, aprisiona. Que prisão é essa em que nos metemos de livre e espontânea vontade? A perfeição é uma delas: a casa perfeita, o momento perfeito, o corpo, a beleza, etc, etc, ad infinitum…

“A forma como me libertei da voz foi incrivelmente simples. Coincidiu com a época em que me libertei de umas dores musculares que sentia na nuca. Por minha decisão, deixei de ouvir a voz. Decidi subtraí-la. Não parei de avaliar a pertinência do que dizia, não comecei a contrariá-la em tudo, porque a voz deixou de existir. Criei um lugar de vácuo e atirei-a para lá. Esse lugar está selado por camadas e camadas de Zé Luís. Não sei com exactidão qual a matéria que impede a voz de chegar aos meus ouvidos interiores; sei, no entanto, que essa matéria é constituída por algo que encontrei em mim, uma espécie de minério, um filão desse minério. Alerta: metáfora de gosto duvidoso. A voz continua a existir, mas não voltou a assombrar-me. Hoje, sou eu que me rio dela, do seu snobismo, da sua mesquinhez. Mas o futuro vai chegar a qualquer momento. Por isso, este texto fica aqui, como uma espécie de mapa. Se a voz voltar algum dia, irei relê-lo para que nunca me esqueça de mandá-la embora imediatamente. E viver.” (Lá estás tu, p.487, Abraço, José Luís Peixoto).

Amiga, leio e releio este texto. Como tu, também preciso expulsar essa voz que exerce uma crítica feroz e cortante. Talvez, a confusão externa melhore.

Acordei no dia do meu aniversário dentro de um avião […]  Viver. Parece simples, mas como é difícil!!!Vive, amiga, vive a vida possível e não a vida que querias que fosse. Aceita a beleza que existe e não a que gostarias de ter (e a mesma fórmula serve para a escrita, a casa, o talento,…..). A minha vida ficou melhor com a tua presença. Por que a tua vida não pode ser boa? Queria que morasses mais perto… Beijos!!!!!!!!

Domingo. Outono. Arrumações que se transformam em preguiça, curiosidade. E vontade de escrever. Minha amiga querida, comecei a carta, e logo bateram, tocaram.  Ontem, antes de ontem, mandei do jeito que estava. Vou assim passando de um lugar para outro, sem foco. Lavo a louça, aspiro, tiro o pó. Arrumo a cama, leio dois parágrafos, escreve outros dois. Olho pela janela. Tomo um banho. Volto. Caminho com a Ônix, volto. E o dia terminou. Esquisito. E… Estou atrasada nas notícias, nos afetos, nas minhas intenções. Esta ansiedade me surpreende. Tudo misturado. Tudo remexido, não apenas gaveta, armários, livros. Revistas. Louças. Fotografias. Queria ordenar a casa, deixar tudo catalogado. Jogar fora o que não serve. Como que preparar esta papelada pro amanhã. Se eu morrer ninguém vai conseguir achar nada. Fogo. Uma grande fogueira. Esquisito. Na verdade, nos preocupamos com o depois. A vida se tornou apertada como um novelo de lã descuidado…haja paciência e calma! Nada de tesouras, ou puxões. Há que se conseguir devagar. O quanto devagar? Elizabeth M.B.Mattos 22/03/2015 14:04:28 -resgate Torres

 

 

 

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