quero mais

1.

Coisa complicada, imagino eu, entregar a história pessoal, não por ser particular, nem suficientemente secreta, mas pela pretensão de posse, do mais e do melhor. Do íntimo, e claro, do excesso de zelo. Da amorosidade do mínimo detalhe, e de tudo que importa no que digo ser a minha memória. Não sou / nem tenho memória exclusiva. Coadjuvantes mais importantes do que eu mesma habitam esta história. Recomeço, ou me armo para contar/escrever/ confessar, não avanço. Desde 2012 eu me invento no Amoras. Tímida. Seguro cada episódio, encabulada. Deixo entender sem dizer, nunca revelo o inteiro. Difícil a nudez. Milhões de reticências. Eu me escondo no autor, eu espio pelas janelas. E, às vezes, num súbito entusiasmo me entrego … Três páginas. Logo me distraio com o feijão, o cozimento do aipim. Com a vontade de comer chocolate. Com o gole de cerveja, com a hora de caminhar. Eu me distraio com o céu das janelas abertas: nuvens vozes árvores e movimento. Não tenho camélias brancas. Jasmins miúdos perfumam a calçada. Guardo os pessegueiros de jardim na lembrança, se pudesse os plantaria na grama da lagoa. Hibiscos não vejo, mas palmeiras coqueiros. O meu tempo é usufruir. Viajo pelos livros, e vou de trem, de bicicleta, de automóvel, de navio ou de avião …, um pouco ansiosa. Gosto de ficar.  Não gosto de ir, gosto de voltar, de fechar a porta. De imaginar que vou te encontrar na rodoviária, no acaso de ir a Porto Alegre, ou voltar de Porto Alegre. Eu me distraio com o cinzento, ou com o sol. Com as coisas desarrumadas, espalhadas. Livros lidos, e os que devem ser lidos, com o telefone que toca e não atendo, não falo, mas me distraio. Quando penso no João, nos filhos, na neta, e ou no silêncio do Lucas cheio de força para desenhar, ah! Estes netos! Ou seja, não escrevo. Não escrevo por mais motivos que tenha para escrever. E me lamento. E a memória vai terminando porque demoro a lembrar da palavra radiador, por exemplo. Ou fico a listar livros que quero presentear, ou examino a estante que deveria ser ordenada, limpa. Toda a energia do amanhecer fica menor quando demoro a sair da cama. Ou arrumo outra vez os armários. Penso que já fui mais cuidadosa com a casa. E mergulho no livro, com tanta coragem que fico acreditando no poder de viver e vivo com ele, … autor, personagem. Ideia se sobrepõe a fantasia, e agora, nesta contagem regressiva penso, não naqueles específicos olhos azuis, ou naquele cabelo, naquele jeito de olhar, naquela promessa, eu penso no que está por acontecer. É este acontecer, nenhum dos que foi que importa. Quero o que seria. Ninguém ocupa o definitivo. Ninguém ocupou. Muitos e intensos amores vividos. Agora …, eu te espero. Este que eu espero seria o definitivo se existe definitivo. Deve existir. Alguém que não vai cobrar nem isto nem aquilo, nem vai preencher este ou aquele lugar. Nós vamos apenas rir e ser felizes, quando/se for possível ser feliz. Sem medo. Prazer fluído do agora.  Histórias de equívocos a ser contadas. Fico a olhar pela janela. Penso na panela que ainda quero comprar. Quadros que não coloquei nas paredes. E os filmes!? Sim, todos os filmes que gostaria de ver. Não escrevo. E penso neste ou naquele amigo que deveria ser mais próximo, e nos amados, que foram, ou passaram a ser, depois…, deixaram de ser. Quando me olho no espelho e vejo o rosto envelhecido, que pescoço! Céus! O tempo passou. De que servem cinco voltas de pérolas, as mais próximas de verdadeiras, ou o charme dos vestidos pretos, as mantas que escondem e enfeitam. Sedas estampas …, os sapatos de salto alto. Saias escorregam sensuais pelas pernas, mas me escondo, sistematicamente, em calças de alfaiataria. E os dedos para as alianças, pedras preciosas, ou nem tanto, envelhecidos. E não escrevo. Penso na água do próximo chá, ou no whisky. Termino (vinte páginas presas antes do fim) o Museu da Inocência de Orhan Pamuk …, agarro as últimas gotas, escondo a vontade de conhecer a Turquia, ou o olhar perdido no Bósforo, ou ainda entrar numa confeitaria …, seguro as páginas a pensar nestas visitas feitas aos museus de Proust, de Maurice Ravel, Pirandello, Strindberg (que me impressionou tanto quando li), Edgar Allan Poe, Tagore, Nobokov, o Museu do Memorial Literário a F.M. Dostoiévski. O Museu Mario Praz, (autor de A carne, a morte e o diabo da literatura romântica – que eu não li) o Musée Flaubert et d’ Histoire de la Médicine, e se penso nestes museus penso nas viagens que não fiz, e não farei. “Não, eu não achava absurda a ideia de um museu de um escritor. Por exemplo, na casa de Espinosa, na pequena cidade de Rijnsburg, na Holanda, achei adequado que tivessem reunido todos os livros de sua biblioteca que tinham sido enumerados no relatório oficial produzido depois de sua morte, ordenados do maior ao menor, como era costumeiro no século XVII. E que dia feliz eu passava percorrendo o labirinto de salas do Museu Tagore, apreciando as aquarelas do escritor […]”. (p.542)

Estacionada como estou em Torres, a encolher o sonho, seguro as asas neste obsessivo desejo de beijar e abraçar.

Volto aos livros. “Há quem encha sua casa de objetos e, no momento que sua vida começa a se aproximar do final, a transforma em museu. Mas eu, tendo transformado em museu a casa de outra família, tentava agora – pela presença da minha cama, do meu quarto e de mim mesmo – transformá –lo, de volta, em uma casa. O que pode ser mais lindo que passar as noites cercado pelos objetos que nos ligam às nossas memórias e conexões sentimentais mais profundas. ” (p.539)

E me ocorrem lembranças, e detalhes de construção, ou ideia de museu do amor. Fico tentada.  Estremeço. “Os verdadeiros museus são lugares onde o Tempo é transformado em Espaço. ” E penso em personagens / pessoas. Nas viagens imaginárias. E penso naqueles que vivem vida com os pés na terra, olhos no olhar, na mata ou no asfalto. Penso sentimento agarrado no gosto e no tato. Reverencio. Pessoas que transformam lembrança memória afetiva em terra em natureza em vida como vida. Elas podem, como os xamãs, ver a alma do mundo melhor do que eu. Então, eu te procuro.

Escreve Pamuk […] “e, como um xamã que consegue ver a alma das coisas, sentia suas histórias bruxuleando dentro de mim. ” (p. 541)

O meu museu seria os teus sentires com gosto de vida viva. Não dos livros, nem dos objetos, neles eu me perco, em ti eu me encontro e me visito por dentro. Elizabeth M.B.Mattos – agosto de 2018 – Torres

corpo inteiro cortei o braço bem boa boa

 

Um comentário sobre “quero mais

  1. Quero mais
    Depois de entediá-la com minhas divagações filosóficas, era necessário um tempo de descanso. Aí encontro seu belo texto no Amoras e compreendo tantas coisas. Difícil conciliar a mente com o olhar. São como paralelas que não se perdem nem se encontram. Transitas entre o olhar e o coração, enquanto minha mente tenta controlar os dois.
    Talvez no desespero da síntese me perca na busca da ilusão do sentido. Aí vou eu novamente por esses tortuosos caminhos. Estivéssemos perto, poderias me dar umas sacudidas se o desprezo não anulasse sua ira santa. Enquanto isso, perco a possibilidade de vivenciar um dia nublado com sua beleza e sua tristeza e acabo pensando como a solidão povoada não serve nem mesmo para produzir desencontros. Geraldo Lima

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