diante dos outros

O atrito contamina toda alegria: surpreendo-me apática. Renovo dor, exercito ausência. Esqueço. Procuro excessos que justifiquem. Decisões emotivas.  O que tenho nas mãos escorrega. Ciúme rancor raiva: amor reclamado. Como posso me perdoar, contar o que acontece? Depois da luta da dor do sangue da perseguida justiça, tudo estremece no gesto. No olhar, na voz. Não arrefece a loucura interna de estar transbordada. Nus, um diante do outro. Entregues aos olhos estranhos de terceiros, expostos, impotentes. Dignidade aos pedaços. Luz na tua nudez, no meu corpo. Fragilidade indefensável. É preciso esquecer um do outro. A perda se desdobra, enterrar não consigo. Ver falar discutir, não quero. E o tempo me engole nesta tua ausência presente. Estou a te contar uma história tão igual a todas as histórias de amar! Espero agitada este valor-motivo. Espero compreensão. Espero teu embalo. Quietos, surpresos os dois. O que fizemos? Era tudo tão para sempre! E agora feios, disformes, maltratados. Houve tanta energia! Um vazio morto não saber onde estás. E o heroico dizer revelar confessar, aonde vou encontrar outra vez.  Desconfiança picada. História de amor desgarrado. Meus olhos entram nos teus olhos. O silêncio de todo o dia não é ontem, nem amanhã. É o inverno saindo azul de dentro do mar e da cidade vazia. Quase perfeito. Quase completo. Quase nada. E eu gosto de lembrar demorado almoço num jantar adiantado. Pouco sono. Manhã enrolada nas cobertas. Olheiras. O cheiro justifica o injustificável. Agora o que me resta? Seca pelas dores, seca pelos fracassos, desencontros. Seca pelas próprias perdas. E não estou livre. O vigor do corpo desfeito de menina pisoteia a velha cansada: grito. Mãos de amores encolhidos, proibidos. Como aceitar o outro na justa medida em que é o outro, e não sou mais eu com ele. A imobilidade come aos poucos carne e pensamento.

A imobilidade engorda e alucina.

A imobilidade nos leva/devolve ao passado, mas nada traz de volta o outro. Há que ser vazio como poço seco. Verdeja a lembrança. Só lembrança imóvel, cristal. Não consigo buscar a água. O nada que somos quando apenas amamos o amor, não o outro. Se eu disser ainda que eu te amo, te amo no para sempre …, se eu disser, se tu disseres. Se eu te disser deste espicaçado forte amor a latejar …, terei perdão? Perdão por ter sido tão pouca, tão vil, tão nada diante de ti. A culpa aumenta a montanha, o mar, e seca a lágrima. É a minha culpa, eu sufoco. Perdoa querido este amor atordoado, esquisito, perdido e achado. Vontade de estar abraçada no abraço. Humilde exercício. Perdoar a mim mesma.

Envelhecemos. Direito tomado como mazela e remendo grotesco. O que resta dentro de nós depois deste envelhecer? Depois que ficamos velhos temos a casa, o pôr do sol, o amanhecer, a madrugada insone. O quarto. Aquela árvore. Os miosótis. A preguiça. E o corpo quieto. Depois que nós envelhecemos eu ainda fervo de amor amado por ti em cada gesto não esquecido. Se eu já tivesse voltado eu ia morrer aos pouquinhos outra vez para te rever / ver. Sem roupa. Mulher velha amada no amor novo. Depois que envelhecemos seremos jovens. Alguém toma conta de alguém, carrega o corpo e o destino. Todavia parece irreal, como se passasse leve, … devagar, mansa, esta vida. Elizabeth M.B. Mattos – Florianópolis – 2006

 

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