assédio

1.

Faço a mudança quarta-feira. Caixas fechadas. Tempo estacionado. O sofá não me deixa dormir, preciso de cama desarrumada, com travesseiros, dois, ou três, cheia de cobertas. Cama é uma boa palavra. Os gatos seguem a conversar durante a noite. Não quero cães, nem gatos, nem ratos, nem passarinho piando. Não sei exatamente o que eu quero. Talvez … (risos). Que não me perguntem em quem vou votar, se o Brasil merece isso ou aquilo. Não diga nada. De preferência nem olhe nos meus olhos. O apartamento parece/está apertado. Vou sentir falta dos jasmins. Vou sentir falta de mim mesma. Alguém bateu na porta. Controlei o meu ímpeto de deixar tocar, deixar chegar, deixar sair, deixar acontecer apesar de … (risos), vou abrir. A Lispector tinha razão quando se debruçava nela mesma para escrever, e se escondia no escuro. Todos devem ter minimamente razão quando dizem basta, chega, não quero, não vou. Estranha e parcial decisão. Nem eu entendo … Assédio. Tudo se trata de assédio. O outro faz a diferença nesta corrida de obstáculos. Nada farei, nem exercício, nem maratona, nem matemática. Não darei nenhum passo. Vou me mudar. Sair do planeta e pronto. Sem endereço. Uma cama, um amontoado de ideias com tinta, invento. Adoro esta palavra cama …, ama,  caixa, isso. Deita. Abraça. Pega. Segura. Chega. Vou beliscar, arranhar, bater. Chega! A palavra era/ é  C A M A. Comprei dois galões, pincel, o rolo … Guardei aquele caixote. Ah! Gosto da cadeira de madeira, espaldar reto. E a mesa da cozinha com aqueles dois gavetões vai me servir também. Não sei porque L. conseguiu escolher um estofado tão demais e muito tão horrível! Fico com ele, e vou me espantar com estas flores amarelas e este roxo gritando. Fecho os olhos. Vou carregar o vaso, plantar um verde qualquer … que não seja exigente e tenha cheiro de flor. Não será iluminado envidraçado, nem ventilado. Céus! Como é mesmo aquele apartamento? A porta! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018

COZINHA LABORATÓRIO

2 comentários sobre “assédio

  1. Fica cada vez mais difícil não comentar… não apreciar… não viajar… não se entregar. Eu tenho uma cama compartilhada, minha amiga. E além do meu marido são cinco travesseiros para apertar, amassar, arrumar e desarrumar… Acredito que a palavra certa hoje seria aconchego. De si mesma. De si mesmo.

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