Lolita ou FALA, MEMÓRIA

Porque estou inquieta escrevo. Preciso ficar dormindo. Não consigo. Renovar recomeçar, adolescendo. Céus! Evito pensar no cansada, no exausta, no tempo. Existem pessoas geniais, mesmo quando elas não se sabem geniais. Não sei definir o fantástico, único, especial, inteligente, iluminado. Aquele que resiste, persiste, fica e decide. Eu oscilo entre leituras oscilantes. Quero aquele prazer suado, libidinoso, quente. O livro termina antes da leitura findar, num parágrafo é já é ponto final. Outras leituras são arrastadas, lentas, e eu vou seguindo, fico eu mesma lenta…, e nesta lentidão indecisa. O vagar abraça beija, mas não move. Sei lá …, não se resolve. Então eu abro outro livro. “O berço balança sobre um abismo e o senso comum nos diz que nossa existência não é que uma breve fenda de luz entre duas eternidades de escuridão.

Uauuu! Literatura, palavra ou apenas uma frase, dois verbos, duas orações. Não resisto: “Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o ser humano, como regra, vê o abismo pré-natal com mais calma do que aquele para o qual se dirige (a cerca de quatro mil e quinhentas batidas de coração por hora).

Com precisão ele ousa. Ele é. Ele diz. Ele me assanha. Eu releio, depois vou seguindo. “Conheço, porém, um jovem cronófobo que sentiu algo como pânico ao assistir pela primeira vez a filmes caseiros feitos poucas semanas antes de seu nascimento. Ele viu um mundo praticamente inalterado – a mesma casa, as mesmas pessoas – e então se deu conta de que ele não existia ali em absoluto e que ninguém lamentava sua ausência. Viu de relance sua mãe acenando de uma janela do andar superior e este gesto não familiar o perturbou, como se fosse um adeus misterioso. Mas o que o assustou particularmente foi a visão de um carrinho de bebê novo parado na varanda, com o aspecto presunçoso e invasivo de um caixão; mesmo aquilo estava vazio, como se, na inversão do curso dos acontecimentos, seus próprios ossos houvessem desintegrado. ”

E eu quis dividir a sensação de estranheza porque entrar na escuridão completa parece abusivo. Injusto. Irei protestando. Já disseram que tenho este lado novelesco exagerado. Estou sempre a sapatear no azul mesmo em dias abusivamente cinzentos.

[…] “A natureza espera que um homem adulto aceite os dois vazios negros, antes e depois, tão impassivelmente como aceita as excepcionais visões entre um e outro. A imaginação, deleite supremo do imortal e do imaturo, deve ser limitada. A fim de aproveitar a vida, devemos não aproveitá – la demais. ” Aceito. Eu concordo, e mergulho, engolindo água, nesta imaturidade insistente. E fico consternada. Não quero envelhecer, não quero morrer, não quero pensar, nem quero os livros, já expliquei. Quero viver. Nabokov segue: “Eu me rebelo contra este estado de coisas. Sinto uma compulsão de externar minha revolta e provocar a natureza, insistentemente, minha mente tem feito esforços colossais para distinguir a mais mínima cintilação pessoal na escuridão impessoal de ambos os lados da minha vida. A convicção de que este escuro é provocado apenas pelas muralhas de tempo que separam a mim e a meus punhos feridos do mundo livre da intemporal idade é algo que compartilho alegremente com o selvagem pintado com as cores mais berrantes. ” (p.19-21) Vladimir Nabokov in Fala, Memória

LOLITA (filme ou livro) está na memória, ou deveria estar, ou vai chegar na memória dos jovens que ainda não leram ou não viram, ou não sabem. Vladimir Nobokov nasceu em São Petersburgo, em abril de 1899 e morreu em 1977. E vou atrás de referências. Encontro uma carta do Paulo Hecker Filho -, acredito que posso/ podia / deveria e …, eu não fiz o tal livro de memórias, ainda não consegui. Envelhecer pode ser dolorido se não guardamos as boas conexões. Eu acho. Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2018

estteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

P.Alegre, 18 de fevereiro de 2004

Beth:

        Estás dando um baile com tantas remessas, verdade que menos cartas – diálogo -que diário. Leva a pensar se não seria de tentares um diário mesmo, em que poderias te deter nos problemas pessoais e aprofundá – los. Pensa nessa

       Não li Desonra, mas A idade do ferro e o COETZEE é mesmo bom. Enxuto, como notas, mas sabendo assim sr mais patético.

       Como falas em ir muito a cinema, não percas Dogville e Terra de sonhos, diversos e chegando longe. 

        Um beijo

COETKZEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE.jpg

Vi os dois filmes. Poderia rever um e outro. Releio as cartas do Paulo porque todas acrescentam. Sinto falta/saudade. …, aos poucos vou voltando para casa, devagar. Apesar de ser tão perto, a viagem está sendo longa, lenta, vou/ volto devagar. Pesada a bagagem. Vou carregando tudo o que me pediste. Acho que não esqueci de nada, qualquer coisa escreve, e pede outra vez. Eu vou buscar. Beth Mattos

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