conhecer sem ver, intimidade possível

…, a bibliografia derrama e esparrama sombra -, teu traço. O processo intelectual,  o desenho definitivo de uma pessoa abraça sentimento e fazer. Pensar junto é estar com alguém / compartilhar, dividir. Contar seria / ou pode ser viver com alguém. Quando nos apercebemos/ ou nos damos conta da importância intelectual de um vida aceitamos/ entendemos que viver é, essencialmente, pensar: não há vida sem a trajetória da reflexão. Não se pode agir e abandonar o essencial -, a interioridade, o vigor da inteligência, a inquietude. Abandonar o universo interior – o EU. Assim a descrição deste mundo que passa, permanece …, caso contrário, tudo será apenas a I L U S Ã O de conhecer alguém que se apoia num agora, efêmero, quase sombra, apenas ilusão … Conhecer alguém não é compartilhar a cama, o almoço, ou ver / olhar para alguém. Não é apenas estar, no espaço e no tempo, com alguém. Não basta descrever o momento, escutar a lágrima, presenciar o fato, ou ver televisão juntos. Para nos avizinharmos, realmente, de alguém,  é preciso descobrir a alma, e caminhar pelos mesmos caminhos internos. Pensar este alguém, entender uma pessoa no seu fazer pode ser descortinar o trajeto intelectual …, este caminho é o mais importante de todos. É ver através de. Aquela estória do espelho, reflexo e imagem, transparência no vazio que pode ser o outro em mim, e eu no outro já foi repetida, explorada …, sei lá. Na verdade não preciso conviver no sentido literal da palavra, mas trilhar a bibliografia intelectual, e assim, mergulhar no outro. Pensando! Confuso, difícil, mas esta me parece a única intimidade possível. Ou a carnal / a intimidade de corpo / sexual, – esta também é um conhecimento sagrado. Comunhão carnal, ou espiritual, através delas chegamos ao outro. Ou dividimos espaço / casa e tempo e experiência, ou a mesma cela sem nos determos no fio condutor da inteligência / sensibilidade. Ou somos estrangeiro ao outro, se terminar o espaço, nada mais saberemos do outro, até o rosto esquecemos, fica a superfície, um reflexo … conhecer é reconhecer sem ver, mesmo no escuro, no silêncio, sabemos da voz do olhar e sentimos o corpo sem tocar. Saber na intimidade absoluta na leitura completa da outra pessoa pressupõe conhecer a narrativa intelectual desta pessoa. Assim, ser no outro, e o outro ser um pedaço de nós mesmos pode ser literal, ou apenas uma metáfora, bem, se for literal é completo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

O mundo dos velhos, de todos os velhos, é, de modo mais ou menos intenso, o mundo da memória. Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos. Além dos afetos que alimentamos, a nossa riqueza são os pensamentos que pensamos e não deixamos apagar e das quais somos o único guardião. Que nos seja permitido viver enquanto as lembranças não  nos abandonarem e enquanto, de nossa parte, pudermos nos entregar a elas. […]  O relembrar é uma atividade mental que não exercitamos com frequência porque é desgastante e embaraçosa. Mas é uma atividade salutar. Na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos.” (p.30-31)  Norberto BOBBIO in  O Tempo da Memória 

Norberto Bobbio nasceu em 1909 no Piomonte. Sua formação inicial foi em filosofia política e jurisprudência na Universidade de Turim. Figura de notável significado moral, tornou – se um dos mais influentes teóricos da esquerda italiana e um dos mais importantes políticos contemporâneos da Europa. Em O TEMPO DA MEMÓRIA, Bobbio traça um irônico e honesto auto – retrato. Editora Campus – 1997 – Rio de Janeiro

O honesto e a ironia e esta intensa, desenfreada e nostálgica necessidade cresce e me alimenta. Este livro, e todos os que li de BOBBIO, é boa sombra. Reencontrar amigos da juventude, adolescência e mocidade -, um desejo de permanência. Percorro a memória, e volto a me apaixonar e encantar pelos jovens que um dia nós fomos. O incrível destas memórias e desejos é o efeito. Vibrações alegres e adolescentes em relação ao amor.  Há sempre um novo amor e amado, e porque não foi dito tudo / nem sentido / nem compartilhado, sigo até o fim, a esperar.  Alguém pode entrar, e pisar no meu gramado. Atenção! Que não pises nos meus sonhos / nem destruas meus sonhos.  Caminhe com cuidado, não esqueça, estamos juntos nesta memória. Beth Mattos

P.S. Certeza de que os amores findos, terminaram com serenidade, e sem sofrimento, apenas terminaram com tristeza, e ainda posso pensar (1997 – Torres)

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