travesseiro, um território

A verdadeira unidade dos casados e dos casais em geral é dada pelas palavras, mais do que as palavras ditas – ditas voluntariamente -, as palavras que não se calam – que não se calam sem que nossa vontade intervenha. […]. Não é tanto que entre duas pessoas que compartilham o travesseiro não deva haver segredos porque assim decidem -[…], mas é que não é possível deixar de contar, de relatar, de comentar e enunciar, como se essa fosse a atividade primordial dos casais, pelo menos dos que são recentes e ainda não sentem a preguiça da fala. ”(p.128)

Quando atropelamos o outro com nossa conversa retrospectiva narrativa temos a sensação de voltar no tempo e entregar a vida por inteiro, como se fosse o todo aquele momento de dizer e entrega. Esquisita sensação de pertencimento. Aconchego. Certeza que agora somos o outro e ele é parte da nossa vida, como …, como, como a gota de felicidade e alegria que faltava. Tenho sentido falta de sorriso, da palavra, de uma voz, de um cotidiano mesmo que escondido na estrada, no não ver/ou estar, mas sentir. Cheguei ao estágio de completo esvaziamento. Estranho.

Javier Marías diz desta necessidade narrativa. O casal se permite a voz simultânea a entrega do corpo desavergonhado acostumado e carente e afetuoso. Estranho manso e generoso e carinhoso na entrega ao amado amigo. Sem promessas nem vontades, apenas entrega generosa, e feliz de um encontro…

“[…]e pudesse assistir através da narrativa a todos os anos em que não nos conhecíamos e em que agora acreditamos que nos esperávamos. Não é apenas, tampouco, um afã comparativo ou de paralelismos ou busca de coincidências, o de saber cada um onde estava o outro nas diferentes épocas de suas existências e fantasiar com a possibilidade improvável de se terem conhecido antes, para os amantes seu encontro sempre parece produzir –se tarde demais, como se o tempo de sua paixão nunca fosse o mais adequado ou nunca bastante longo retrospectivamente (o presente é desconfiado), ou talvez seja que não suportam que tenha havido paixão entre eles, nem sequer intuída, enquanto os dois já estavam no mundo.”

Curioso! Transcrever e pensar em comentar me faz sorrir a pensar, e se o amor ainda estivesse para chegar e me tocar como se a vida fosse setenta anos de espera e ansiedade, filhos e netos e faceirice de esperar? Por que assim? Porque de repente um buraco vazio e esquisito se faz visível e quero outra vez querer. Tão infantil isso! Tão desgarrado! Tantas vezes fui forte e dura, mas tantas apenas …, apenas solitária. Que inveja daqueles sólidos casamentos, daquelas relações de uma vida inteira!

Não é também que se estabeleça um sistema de interrogatório diário a que por cansaço ou por rotina nenhum cônjuge escape e todos acabem respondendo. É antes que estar junto de alguém consiste em boa medida em pensar em voz alta, isto é, em pensar tudo duas vezes em vez de uma, uma com o pensamento, outra com o relato, o casamento é uma instituição narrativa. […] ‘Na cama se conta tudo’, não há segredos entre os que a compartilham, a cama é um confessionário. ”

E eu voltei para o meu autor espanhol, assim ao acaso, este livro Coração tão branco é uma edição de bolso da Companhia das Letras, comprado no aeroporto, na espera porque eu sempre chego milhões de horas antes. Saio de Torres num horário adiantado de ônibus e vou a esperar o voo que não se atrase ou atrase. As duas horas e meia que me separam de Rio ou São Paulo se transformam num dia de viagem, e de leitura, e … retomo Javier Marías, confirmando minha preferência belicosa com o autor.

“[…] a cama é um confessionário. Por amor ou pelo que é a sua essência – contar, informar, anunciar, comentar, opinar, distrair, escutar e rir, e projetar em vão – uma pessoa trai os outros, os amigos, os pais, os irmãos, os consanguíneos e os não-consanguíneos, os amores antigos e as convicções, as ex – amantes, o próprio passado e a própria infância, a própria língua que deixa de falar e sem dúvida a própria pátria, tudo o que em toda a pessoa há de secreto, ou talvez de passado. Para agradar a quem se ama denigre –se o resto do existente […] a força do território que o travesseiro delimita é tanta que exclui de seu seio o que não está nele, é um território que por natureza não permite que nada esteja nele exceto os cônjuges, ou os amantes, que em certo sentido ficam sozinhos e por isso conversam e nada calam, involuntariamente. (p.129-130)

E penso, eu lá no meu pensamento, que a cama, este travesseiro dividido, estas horas de conversa entre o sono e a vigília, quando o sono derruba e o abraço acorda, e o corpo conversa é o território da vida, do mundo, o mais povoado e imenso …, estas conversas e este estar não tem borda nem limite. Enquanto penso o que o autor espanhol pensa e escreve imagino esta conversa sem freio sem censura. O limite sacode e invade um universo maior do que pensamos ter (um dia, eu também dividi um travesseiro) … E deu vontade de atravessar o mundo outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – novembro em Torres  2018,  num sábado cinzento com chuva que vem e que vai e trovões sem raios …, a chuva é uma conversa. Depois da taça de café e espiar o ninho daquelas pombas cinzentas, tem um filhote ali, a ideia do dia parece ser ainda Pamuk, ainda soneca e ainda queixas! Que o tempo de sol me acorde.

4 comentários sobre “travesseiro, um território

    • os méritos ficam com Javier Marías que inspira e trabalha tão bem este universo de intimidade, tu és poeta, eu gosto das narrativas, mas o que importa é estarmos um na leitura do outro. Obrigada, por dizeres.

  1. A ideia é sempre esticar a leitura. Ires conferir o livro seria o maior e o melhor, e outras questões estarão sinaleiras e …, a se prolongar. A leitura tem estas costuras que são MARAVILHOSAS!

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