leitura desdobra o tempo

O livro desdobra “Retalhos  de recordação, arranjados ora assim, ora assado, se juntam deixando lacunas. Eu desenho o perfil de uma pessoa que sobreviveu casualmente, não, vejo uma folha manchada, mas de resto em branco, e a folha, que sou eu, poderia ser ou gostaria de ser o esboço impreciso de minha existência posterior“. (p.181) Günter Grass Nas peles da cebola Memórias

Sufoco enquanto leio, não apenas do calor, mas da memória. Dói, ou melhor, escapa asfixiada. Não quero jogar pedras nem maldizer a interferência maléfica de mãe,  alienação paterna, e a vida despreparada. Tantas vezes usei o confessionário para jogar a raiva, despejar injustiça e ser perdoada. Calada. Este livro de Günter Grass na beleza honesta da palavra pesa e ilumina com holofote o amor dos desamores. Que medo sinto da verdade! Como confessar no fim do caminho que amei de amor apenas ele e nossa inocência, nossa luz própria? Não é tarde para mencionar, nem contrapor aos arremedos mascarados que redefiniram minha vida no Rio Grande do Sul. Ainda lembro quando nos conhecemos num almoço de domingo na casa dos Franciosi. Era verão, férias, eu estava de passagem em Porto Alegre. O livro me trouxe a história toda, as injustiças, o despedaçado da dependência. A minha fraqueza, fragilidade e despreparo. Eu que fui sempre/ e sou empurrada, manipulada. Não tive coragem de ser apenas eu! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019

A releitura dos Cadernos Memória, novas anotações e desabafos tímidos. Será que consigo contar? Detalhar, e voltar no tempo? Tenho costurado pequenas histórias na fantasia/narrativa da lembrança do outro,  agarrada no que pode ser bonito, mas nada é mais ou maior do que o amor. E a vida nem é bonita ou perfeita. Quiça a verdade seja.

cadernos memÓria 1

Além disso, imagens desenhadas pelo desejo se insinuam – o homem jovem, sério, meditativo, em busca de sentido entre os escombros -, e são jogadas fora, hesitantemente.” (p.181)

Caminho pelo livro e risco, sublinho, interrompo e penso. Redesenho a memória. E vou colhendo frases, costurando:

Não-sei-mais-o-quê poderia ser encontrado em palavras cochichadas em um monte de feno.”  É a juventude da primeira experiência sexual.

Primeiro, para o treinamento em GroB-Boschpol, depois direto ao front e, mais tarde, conforme ele havia escrito, apenas para construir pontes nas montanhas… (p.189)

Construir pontes nas montanhas, apenas para… A cada experiência interior pontos de reticências abnegados, nunca falei nele porque o amor amado, o único entre tantas narrativas e fatos anunciados. Lúcida, inteira esta memória, intocável.

“E fui eu, então, que cochichei isso e aquilo no monte de feno.”

Nunca pode ser a boa palavra, mesmo sendo fluída, ou rígida. Assim mesmo a memória detalhada daquele apartamento vazio, ou quase. Lembro do quarto, das árvores da rua, da cozinha aparelhada, completa, moderna anunciando o depois. E nós sentados no corredor, encostados na parede comendo maçãs e confabulando, saciados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s