Balanço 1952 – 1919

Estas leituras e estas citações costuram colcha amiga/antiga: livros se acomodam em baixo do meu colchão já escovados, limpos e adormecem. Se esquecem de mim, e eu deles. Tanto para anotar / dizer desta vidinha enterrada. Areia remexida da lagoa sem aguapés. Cansada de não ter certeza. Exausta com o ruído: sem vontade de ir adiante. As pernas doem, desejo de massagem no corpo todo. Sono quieto, não desejado, mas calmante, apaziguado. Cheiro de cera, de limpeza, de beleza a sair pelos vidros. Da lagoa. Feliz! De repente, sem avisar bates na porta do meu quarto, e num olhar de abraço, me dizes: vou te ajudar, te aquieta. E a febre cede devagar, os pés aquecem, o corpo se remexe feliz. Abraço o travesseiro, enfio o nariz no perfume do lençol. E durmo. Nunca mais me deixarás: tua cadeira instalada junto a minha cama, tocas violão. Fechas as janelas. A penumbra, ar pelas frestas. Se eu voltar a cabeça, vejo o sol. Sem fazer força sinto que posso viver mais dois ou três anos, e terei amoras azulando os livros: editados por/com teu cuidado. Apenas para me fazer feliz, tu me fazes o presente. E os filhos  chegam com flores, silêncio e alegria, como eu gosto! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres Amanhã vou fazer almoço e a comida. Sempre a mesma, vai animar a festa! Pedro trouxe duas garrafas de vinho. Luiza costurou uma camisola solta que desce até os pés. Joana perfumou meus cabelos, e a Ana Maria segura minhas mãos. Os netos espiam encabulados.

 

Balanço de Uma Campanha

Outubro, 16 – Continuo arrumando papéis o dossiê da campanha política malogrado, na parte de discurso – para devolver tudo ao nosso ex-candidato. Vejo que na correria, perpetrei, sem pronunciá – los, os seguintes discursos, levemente retocados pelo orador. […]

Outubro, 18 – A vitória de Getúlio Vargas na eleição presidencial incentiva o folclore político que o envolve. As piadas realçam -lhe a simpatia, a esperteza, o carisma. E voltam-se contra os candidatos que o enfrentaram e que foram derrotados por eles. […]. Venceu, é o maior. Mas há também a parte calculada dos que desejam explorar o triunfo por todos os meios, visando tripudiar sobre os vencidos. O folclore getuliano dá às vezes a impressão de ser laboriosamente fabricado e distribuído. ” (p.95)

 

Janeiro, de 22- Tarde de chuva fina, no centro. Junto à livraria, observo minuciosamente as ruínas do tempo, que me sorriem. Para não sofrer com o espetáculo, preferia fechar os olhos. Eles, porém, inspecionam por conta própria, máquina fotográfica a funcionar independente de mim. Chove no passado, chove na memória. O tempo é o mais cruel dos escultores, e trabalha no barro.” (p.97)

 

Janeiro, 11 – Nosso bardo deixou hoje a casa de saúde, depois de intervenção cirúrgica com anestesia geral. Revelou espantosa capacidade respiratória, ao contrário do que se receava. E foi para a casa da Estrela Vésper, que o recebeu com carinho.

 

Março, 28 – Saiu Viola de Bolso, que me rendeu oportunos 2 mil cruzeiros em direitos autorais.

Leituras. Pinço em Vitor Hugo um verso que parece me definir;

 “Une immobilité faite d’ inquiétude. ” 

E outro, idem, em Mário de Sá – Carneiro:

Fartam-me até as coisas que não tive. ” 

Aprendemos muito com aqueles que jamais souberam de nossa existência.

Maio 16 – Portinari vem conosco de automóvel para casa. Como sempre, ele faz toda a despesa da conversação, sobre pintura. Não leva a sério a Semana de Arte Moderna, e diz:

– Em 1922, Picasso já estava enjoado de modernismo e mergulhava na fase grega. Aí apareceram nos nossos modernistas. Que é que a gente diria se um camarada falasse numa semana de arte moderna realizada em Assunção? No brasil, o cara aplica uma injeção em Uberaba e vira logo Pasteur…

 

Dezembro, de 31 – Escusa fazer balanço do ano. O tempo é contínuo, e a divisão em meses, convencional. Por que ter esperança no ano próximo e desacreditar o que passou? Eu é que passei, não ele. Fiz 50 anos. Perdi um irmão discreto e simples. Tive ímpetos e descaídas. Não me sinto habilitado a julgar a vida nem a mim mesmo. E seria preciso? Num conjunto colossal como o universo, que importância teria destacar um ano, uma vida, uma pessoa? ” (p.99-100) Carlos Drummond de Andrade O observador  no escritório

“1954

Maio, 20 – Pouco pensei em ti, hoje, do muito que gostaria de pensar. Tua lembrança caminhou algum tempo comigo, nas ruas, mas era antes o desejo dela, de uma convivência mais intima, repetida e tranquila com a tua essência, e que mantenho tão abafada sob interesses imediatos. Perdoa – me não de te amar como queria, tanto mais quanto sou eu mesmo que me reduzo e me empobreço com tua falta. […]” (p.105)

C.D. de Andrade O observador no Escritório

 

 

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