e nós…

Da autobiografia: 29/05/2019 17:53 – Torres / Rio Grande do Sul, longe do Rio de Janeiro, e por que não em São Paulo? Montevidéu. Buenos Aires. Bariloche e nós. Não era ambicioso, mas juventude. Se penso lembro que não pensava …

Comprava livros: logo formamos uma pequena biblioteca importante: anotada e pesquisada por ele, os necessários, melhores e importantes autores. E comíamos boas massas italianas. Eu enfiada na cama lendo. Ou na frente do fogo embaixo daquelas mantas enxadrezadas e macias. Revistas também me alegravam. Às vezes, Marco se ausentava em viagens mais longas, importantes. Providenciou meu passaporte, queria que eu fosse a Itália, nunca fui. Preguiçosa para viagens eu me deixava ficar enfiada em casa. Uma vez me trouxe uma bandeja de cerejas naturais/ frescas de Modena. De Milão uma saia de veludo marrom… Ele me queria princesa. E o que comprava era como se fossem luvas de pelica perfeitas. Original. Delicado. Eu andava de bicicleta, passeava pelas redondezas esperando sua volta, plebeia. Marco cozinhava massas maravilhosas. Trazia queijos especiais e pequenas delícias nas malas e massas de vários tipos. O vinho, o melhor. Nossas pequenas viagens eram a Buenos Aires, Bariloche no verão com os lagos e a floresta, ou a neve do inverno, pequenos e gostosos dias de férias. O melhor era estar em casa. Mesa simples. O pão importava. Éramos italianos. As frutas? Todas. A casa, dois pisos em Carrasco. O leite a manteiga a carne uruguaia. Jovens e glutões, dois magrelas apaixonados.  Pequeno jardim cuidado. Flores sempre. E a lareira acesa. E aprendi o gosto de pequenas delícias. Uma vez fui a Punta del Leste de moto e chegamos no Floreal despenteados irreverentes e alegres. Paolo, vice-cônsul, ousou a velocidade, e eu fui, Marco nos seguiu de carro cauteloso, circunspecto. Era tão fácil respirar!

Nos conhecemos no Rio de Janeiro, ele morava num belíssimo apartamento em Ipanema na Prudente de Morais. Todos os meus colegas da Aliança Francesa tinham ido esquiar, eu não. Era a festa-confraternização do retorno. Alguém foi me buscar, depois da faculdade. Lembro da minha roupa, das músicas, das conversas. Nunca mais nos deixamos / foi para sempre. Ninguém larga o amor ou deixa passar ou espera o que imagina ser a hora / o momento certo. A vida é agora, neste minuto eu vivo. Um constante agora importante / belo e cheio de novas histórias. Claro! Não estamos eternamente apaixonados. As ausências nos estranham com lágrimas e segredos, mas, assim mesmo, estamos / somos vivos e completos e novos e outros e prontos e, principalmente, alegres. Escolhas. O outro não é o mais importante, o mais importante somos nós mesmos. Eu fui jovem … Livre. Alegre. E esta moça jovem sempre teve três filhos. (É assim minha memória, completamente maternal, mesmo longe eu era mãe, e me dizia: três filhos alegres felizes e bonitos porque amados). Sempre tive filhos. Engraçado quando penso sobre isso. Casei cedo e deu tudo errado, ou tudo certo porque eu tenho estes filhos. E aquela família foi mesquinha, pequena, vaidosa e quis me tomar tudo, até as crianças, mas não conseguiram. Graças! Nunca precisei de nada deles, nada. Absolutamente nada. Nem minhas crianças precisaram. Tive um pai e uma mãe especiais que me cuidaram, não tomei conta sozinha. E sempre tive Torres. Sempre voltei para casa. Tudo fiz depois de me separar: viajar, apaixonar, vestir Armani, Faculdade, francês, hotéis de muitas estrelas, sedas e veludos, cerejas e especiarias, não muito longe, porque temos o Uruguai e a Argentina tão perto, e naquela época, o mundo estava em paz e dançava melhor a valsa.  No Rio nos hospedávamos no Sheraton Hotel com aquele pedaço de mar particular Na Lagoa Rodrigo de Freitas, os melhores restaurantes. Dançamos no Balaio, Copacabana Palace (aliás, Marco não sabia dançar). Uma charmosa livraria francesa ali perto … Tempo de falar francês escutar italiano e entender espanhol. Sempre com os olhos espichados nas crianças.  Não fui a melhor mãe, nem a pior. Tudo natural. Eu tinha alegres vinte e cinco/seis anos. E a mãe e o pai sempre no Rio de Janeiro administrando minha juventude e a casa. Marco passou no Sul uma daquelas festas natalinas na casa da irmã. Luxuosos e festivos natais ela sabia preparar na casa de Ipanema: e a nostalgia, imediatamente, se transformava em festa com guizos flores frutas e bom gosto. Ser jovem veste leveza descontração, não tem juízo nem cautela porque tudo é de pureza juvenil. Tempo de sorrir. A gravidez um coroamento de beleza. Que todas as mães sejam jovens belas e livres e felizes. A maternidade tem gosto do eterno. Não tive um filho com o Marco. Teria olhos azuis o nosso bebê. E nunca mais teríamos nos largado / separado. Era justo que tivesse um filho, um casamento triunfal com direito a igreja e …  Eu me sentia impotente, este presente-fantasia-vida eu nunca poderia lhe dar. Ele não imaginava /  não sabia que um dia ia querer / desejar / sonhar um filho. (Casou e teve três. Um menino loiro com olhos azuis, e duas meninas, este menino, certamente, é o nosso, e mora na Austrália, não sei se ainda pertence ao quadro de engenheiros da GTE, nem se a empresa existe com este nome). Talvez eu tenha me equivocado. Talvez pudéssemos ter tido o nosso e os meus. Talvez eu tenha errado, mas viver não é assim mesmo? Um amontoado de equívocos / enganos / desencontros / encontros / abraços / beijos e despedidas? Foram quatro ou cinco anos de tanta alegria! Tanta surpresa florida! Quando terminei a faculdade, o último dia, o da formatura mesmo, entro em casa esfogueada e acesa, e meu pequeno apartamento era um jardim: rosas jasmins e flores coloridas por todos os lados. Uma festa de perfume, não vou esquecer. Guardo o cartão presente e gentil. Acho que todos os italianos devem ser galantes, elegantes educados, apaixonados. Loiros, os que nasceram em Modena. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2019

Marco

Syzy Menezes Estrela e os filhos, Marco e  eu

Sem Título-16

Porgy and Bess de Miles Davis – escutar boa música! o tempo volta sempre que adormeço.

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