…,outro tempo, tanto tempo!

…, outro tempo, tanto tempo!

Torres,19/03/99 00:46:28

Tenho certeza da emoção deste momento: saudade do pai e da mãe: do jeito que deram para a vida que não levaram, (há uma potencialidade grande! Tão grande! Enorme a vida, não damos conta, eu acho. Fica- se a querer mais e mais, eles podiam seguir, eu gostaria tanto! – Deixaram passar – como estou fazendo agora… Estou? Não sei se sei.

A vida que não levaram, o que pretendo dizer com isso? Pessoalmente acredito que a cada pequena escolha feita traz uma não escolha, um não viver. Acerta – se isso e aquilo, mas também erra – se aqui e ali, alguma coisa fica perdida na escolha. Como laranjas, deixo de comer uvas. O difícil de uma narrativa linear, explicativa são os desvios, as escolhas. Quando penso meu pai e minha mãe e penso, dou – me conta do pouco / ou muito que sei da vida deles, dou-me conta do mais e do menos. E tudo o que eu possa afirmar contém uma negação. Oculto e mostro ao mesmo tempo num fato, outros. Consciente ou inconsciente, este é o jogo.

Amor e ódio. Aconchego e frio. Enquanto o pai foi presente a mãe foi ausente ou ao contrário. Não há simultaneidade na história. Herói e heroína. Lembro dela costurando a preparar entre costuras (habilidosa e incansável) nosso pequeno enxoval de verão, eram dois meses cheios na praia de Torres. Lembro dele descascando laranjas no alpendre em invernos ensolarados. Lembro dos dois conversando, olhos arregalados e verdes os dele, os  dela instigantes e vivos olhos castanhos. Das discussões. Das presenças. Tenho a nítida sensação que um empurrava o outro para a vida. Roberto, gentil e doce, Anita, generosa e exuberante. Como posso descrever o avesso? As parciais e honestas confissões: as dele, e as dela. Não consegui segurar todas. Registro uma carta do pai:

Torres, 9 de dezembro 1988

Minha filha querida Elizabeth

Acabo de ler tua carta, caminhando pelo calçadão da Prainha. Dia fechado, chuvoso, mas enfim é Torres e aqui quero passar meus dias revivendo minha vida, tão longa e plena de lutas para sobreviver com dignidade junto minhas filhas e minha mulher. Nunca fui Juiz e todo o meu trabalho profissional foi pleno de ‘pareceres’ […]. Sinto-me gratificado vendo hoje minhas filhas, independentes e com personalidade para darem, também, aos seus descendentes o exemplo de compreensão e coragem na luta do dia a dia que tanto exige de cada um de nós. É engraçado como vocês três são diferentes, herdeiras, cada qual, de nossos defeitos e qualidades…

Mas para meu orgulho são amigas e é o que espero nunca deixem de ser. Cada uma de vocês precisam muito uma da outra e é tão bom ter um ombro para se encostar a cabeça…

Chega de arengas do velho Pai… Dia 15 mandarei pelo Correio para a Caixa Postal 102 de Rio Pardo o meu presente de Natal para os netos “grandes” 30.000,00 para cada um, em cheque aqui de Torres que colocarás em cobrança no teu banco. Tudo de bom para ti, Jorge e filhos a benção do Roberto” 

A explicar os netos “ grandes “, se refere aos meus três filhos do primeiro casamento, Moog, como já sabes. Tenho cartas do pai, outras poéticas da mãe. Sigo a te ler e a indagar. De repente entro pela noite pensando nos alunos: o jeito de fazer crescer, botar água, um pouco acreditar na leitura, outro pouco a crescer… Na verdade o que, lá no fundo, morto já está, sem saída, amarrado, esquecido, pouco vale. Mas não digo isso. Tenho alunos / boa dádiva. Desdobro a conversa: grito, faço teatro, nem respiro. Chego cansada – perdida.

Volto a pensar no tempo em que F.T. estava/ficava aqui, e eu podia discutir, convencer, recuar, aceitar, e brigar para depois escutar, continuar a pensar. E tudo já te contei do Tavares, cartas perigosas, raivosas e ferventes. Inclusive, como o conheci na casa de Iberê Camargo. Tralhamos/ trabalhei no livro Gaveta dos Guardados, manuscritos que nos foram entregues, aos dois tanto Iberê confiava, para serem transformados em livro. Iberê em seus últimos dias de vida. E toda uma polêmica pressão sobre esta edição que acabou nas mãos da Edusp (mas esta já é outra história com tantas interferências! Mereceu discussões via jornais de Porto Alegre, São Paulo e Brasília. Cito página 84 / Gaveta dos Guardados, sei que tua crítica é severa, suavizo:”Agora tu e eu aprendemos a dissimular, a enganar, para que o amor sobreviva. […] Por muito tempo vivemos felizes. Mas um dia se desfaz o misterioso laço que une os amantes. O vento da desesperança, de que fala Mário Quintana, soprou entre nós e nos separou. ” Iberê Camargo, no conto intitulado: ela mora no outro lado do rio. Sabes, e gosto. E volto. O curioso que na carta que me escreve Iberê menciona “O vento da desesperança“, transcrevo:

 

“Porto Alegre, 7 -5 – 1988

Cara Beth

Tu não escreves mais. Teu silêncio me faz pensar no Vento da Desesperança de que nos fala Quintana. Este vento que ninguém sabe onde mora e de onde vem, vento que uiva como cão, que sopra sobre os charcos, que enraivece o fogo e propaga incêndios, que sopra sobre tudo podre, morto e ruim; este vento separa os irmãos, os amigos e faz com que não mais se vejam, não mais se falem e, tudo isto, sem explicação ou razão. Ele transforma o amor em ódio. Ele apaga a vida. Será, Beth, que este vento mau soprou sobre nós? Desconfio que ele nasce e mora no coração do homem. Com afeto, o Iberê”  Deve ser o exercício que me imponho visto que romance não escrevo. Droga! Então!Tudo te conto, e repetidas vezes Paulo, eu te conto. Perdoa. Escreveria um livro de / com cartas, fragmentadas, deste jeito mesmo. Curiosidades. Em 1974 no Rio de Janeiro Iberê expõe guaches na Galeria da Aliança Francesa de Botafogo. Vianna Moog começa sua coleção de Iberês. O atelier da rua das Palmeiras em Botafogo inaugurado em 1972. No intervalo de uma aula de francês conheço o pintor Iberê Camargo e Maria, sua mulher da vida inteira. Aqui segue fragmento de outra carta. Saudade do amigo, também sinto. E já sei porque me  repetes: preciso caminhar sem muletas, sem Iberê e sem Tavares. Mas…, transcrevo:

“(…) encontraste felicidade nas coisas simples: marido, casa, arvoredo, gado, e para alimentar a tua fantasia, as nuvens que, nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras.  Reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste? Também gosto da vida da campanha — bem a conheço –, vida arrastada, modorrenta, feita de dias longos, demorados. Em Porto Alegre também há muito remanso, muito sossego. Mas eu não me deixo adormecer na modorra. É preciso estar atilado, se não, a gente vira coisa, morre por dentro. Tenho saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas e dos carrapichos que jogava, por judiação na corujinha da minha irmã preta. Hoje tudo isso é lembrança. Eu também sinto falta dos amigos do Rio, não da cidade. Tenho trabalhado muito, de sol a sol.” Iberê 

Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos. Nostalgia ao reler a carta. O tempo da campanha foi paz, e crianças; depois tempestade. Somos nós que mudamos, ou a vida nos surpreende e atropela? Ou se desdobra mansa…

Abro o livro outra vez:  Saudades de Voltaire. Como me agrada tanto! Começo pelo começo, volto para recolher pedaços. Obrigada pelos volumes que mandaste. Chegaram a/em tempo. Os alunos estão a ler também O caráter de Jesus e Juventude. Eu já te digo que muitos olham aflitos, e me perguntam se é só ler e depois?! Ainda não cheguei no depois.  Começo, na madrugada, o trabalho pela leitura do teu Voltaire, Rio Grande. Bobona!! Agora há que se dizer e ter escolaridade nesta leitura. Ler, ler, apenas ler?! Como explicar/incitar fazer trabalhar e desdobrar a leitura? Cada turma um livro diferente. Com Paulo Hecker Filho, instigados. Flávio por conta de Memórias do Esquecimento, livro que também foi lido em sala de aula, fez uma sessão de autor presente, um debate em sala de aula, virias a Torres? Quero botar uma vida inteira na panela do feijão. Citações da minha leitura, teu livro.

“Esse apego, a seguir, busca se apoiar nas doçuras do campo, que não são poucas (nem as amarguras), dando vez a um bairrismo que inclui uma falsa imagem de autonomia e dignidade. ” Donde sai este gaúcho descrito como é / ou pensa ser. Ou sou eu a ler o que escreves como reza de catecismo certo? Bem, eu morei na fazenda, em Rio Pardo, sabes, senti as coisas do verde, das curvas de nível, das porteiras. Tomei do ar e, na intuição escrevi sobre exclusão. Encaminho no final. Parte da minha narrativa perdida…  A reacionária gaúcha sem nunca querer ser gaúcha, renegar, bater pé e fugir. Ignorância no assunto dos sem-terra, na luta pelos excluído e incluídos. Gaúcha a se pensar carioca, mas sempre gaúcha, adorei estes teus versos!

“[] há um vestido por ano,

        há sexo de todas as maneiras,

        ou não há, nunca se fala disso.”

 Leio, releio e vou em frente, penso e não digo, escrevo. Vontade de conversar. Já sei, nada de café. Nem água. Muito menos cerveja ou destilados. Então releio tua crônica:

“Vá que a ideia de afrontar qualquer poder é antes romântica e conduz à imoral tentativa de submeter os outros. Mas acresce a pessoa a noção de resistir sem reclamar, de enfrentar por si o adverso, de buscar se respeitar enquanto homem. ”

Volto ao tema/tempo: sinto saudades de pai e de mãe, de colo e do mundo que era deles, nunca meu, – sou espelho. Resvalo na literatura citada pelo / no teu livro. “Simões Lopes Neto, ou O Continente com Ana Terra (mulher) Antônio Chimango, Fronteira Agreste.” Agarrada ao Érico,  metódico, triste ou melancólico. Lembro bem dele. Quero voltar, repassar encontros com a Mafalda, com a Olga, a Reverbel: fofocas, com mel com fel. Se abrisse um parêntese aqui seria outra história de Porto Alegre, de Petrópolis de Porto Alegre, histórias deles. Não minhas. Conversas que muito bem dizes / explicas na crônica EU GOSTO. Passo a poesia, mas fico nos versos, procuro tua prosa. Choramingo a beleza, e me incluo:

Mas o povo não gosta de poesia. É gênero difícil, que exige iniciação, exige familiaridade com o sentimento e o êxtase. E quem tem sentimento? Quem tem êxtase? Bem poucos, Deus me perdoe. ” (p.24) Paulo Hecker Filho, in Eu Gosto

E lá estou eu entre os que não leem a poesia nem sentem o gosto deste todo que pode ter – preconceito – dificuldade, abandono de que pedaço? Nas prateleiras os poetas não lidos. Não gosto. E gosto dos teus poemas, todos que leio, e então eu me sinto em casa. Fernando Pessoa é claro, tudo, inteiro. Alguns outros. Poucos. O que eu fiz do meu tempo por que não posso escrever “sou antes da casa e, em particular, da cadeira em que leio...” Suspiro inquieta. Fico outra vez querendo te dizer, contar, resmungar no teu ouvido e querer saber se todas as coisas inacabadas. Minha cura da doença deste silêncio deste viver no faz de conta em que vivo. E gosto. Da gente toda que eu toco na lembrança, por telefone, num encontro casual… Fantasmas que caminham na memória. E os nomes significam, quase todos.  A revista Crucial mencionada(tem alguns volumes perdidos aqui…), Vera Mogilka Josué Guimarães segurando a mão da mãe no hospital, entre a vida e morte de uma morte que houve, nós sabemos. José Otávio, Tânia Faillace e sua primeira edição apadrinha por Érico (isso é o que dizia), Luiz Fernando Veríssimo humor e genialidade com o seu Pedro Veríssimo, e eu com o meu filho Pedro Vianna Moog. Encontros de conversas silenciosas e gordas. (Acho engraçado existir um Pedro Moog, um Pedro Veríssimo selando amizade de tantos anos!) De Antônio Carlos Resende para quem não voltei a encontrar, por quê? Li os livros todos embora guarde preferência pelo O rapaz que suava só do lado direito (1979) e Magra mas não muito, as pernas sólidas, morena (1977) – Antônio Carlos Resende, também gosto. Consegui que fosse a Santa Cruz do Sul, por estranhas coincidências, amigos/primos em comum. Sociabilidade. Podia insistir, telefonar, escrever. Silenciei. E tu ficaste aí plantado deste lado de lá como parte, já te disse, da família do lado de cá. Coisa estranha! Medo feio destas coisas que não sei, não se acabam. Ficam. Por quê? Conversas nas frestas do verão.

Curiosidades! Digo que se gasta em jornal, não acrescenta. O Moacyr Scliar que morou na Vitor Hugo 229, surpreso com a surpresa coincidência me deixa ir / voltar a entrar na casa que hoje pertence ao cunhado. Os acasos, depois da palestra na ULBRA, jantar na beira do rio Mampituba, confraternizar e homenagear o autor convidado. O tempo se revira. Na conversa descobrimos a casa da Vitor Hugo em comum. A casa que conheces por conta da Anita e do Roberto. Eu era criança (risos). Tudo radiografia…

Outra curiosidade da vida foi trabalhar na galeria Garagem de Arte e já ter feito, aos 18 anos, entrevista com o Xico Stockinger publicada na Revista do Globo.  Queria que tivesses avaliado. Walter Galvani, depois, publicou na íntegra, no jornal Folha da Tarde: por simpatia, galanteio, como flores, eu sei. Vaidosa, como gostei?!!!! Estou nostálgica! Sérgio Jockymannn e o Celso Gutfreind, citas na crônica. Claro, eu gosto. Tagore está na lista preferida. Liliam Lemmertz! Vejo na casa, outra vez. Lineu Dias – eu sei. Ao ler teu livro volto a todos com saudade. E a correspondência embrionária de tudo. Adoro cartas! Já sabes! Adoro teus poemas, tuas crônicas. Eu te gosto. Já sabes também. Cartas são o embrião. Quando releio outra história comprida e bonita! Enfim! No final é pobre. Pobre! Tudo pobre e coincidente?!!! Que doença é esta que me toma quando eu te leio? O que é isso que tenho amolecido, sem forma, apenas quero pedaço do que já foi porque o fazer não se faz, acontece. E fico lenta, quieta, espreitando a noite. Quero carinho, aconchego, sinto saudade e arrependimento. Tristeza grande, outras vezes pequena, e uma solidão, engraçada, tumultuada pela fantasia louca daquele passeio entre tecidos que são os quadros, tu sabes. Os quadros daquela pequena galeria da Coronel Bordini. Renderam um conto. Este já leste.  Longe da minha vida de agora a lembrança segurando um tempo esquisito de esquecer, duvidar e nada ter. O que eu quero eu não sei. Agora, hoje, eu queria poder te escutar, ouvir… Não. Eu preciso continuar a ler e preparar a aula do novo milênio que repassará o gosto de ler, escrever… Estudar, continuar. Não parar. É isso.

Segue o texto escrito sobre aventurar – se no outro mundo a inteligência for desperta para o puro prazer do prazer. Este, ainda não comentaste. Elizabeth M.B. Mattos – carta para Paulo Hecker Filho com quem mantive correspondência e amizade – julho de 2019 – Torres

Quem são os excluídos do prazer? (Título e texto, provisório)

O prazer, a libido dentro do homem, o nosso prazer sexual, cultivado; não segue apenas o instinto. Desenvolvemos a sexualidade como desenvolvemos a intelectualidade e todos os nossos potenciais. O uso da inteligência nos qualifica e o uso da sexualidade nos amplia, nos potencializa como seres humanos completos.

Desenvolver a sexualidade, usar a sexualidade, saber o prazer depende da possibilidade intelectual de cada pessoa, da complexidade do homem, da interioridade do homem, para não radicalizar afirmando: depende da nossa inteligência. Os menos favorecidos socialmente terminam por ser os excluídos do prazer pois abandonam muito cedo as potencialidades do próprio corpo. Desenvolvem uma sexualidade limitada na própria necessidade de sobreviver e não viver. Menos preocupados com os limites do eu e do corpo se abandonam. Esquecem quem são eles e o que poderiam vir a ser. Não há, assim, completitude, mas deformação.

As pessoas que não desenvolvem potencialmente a inteligência terminam por abandonar a sexualidade. Abandonam a preocupação com o corpo, com os limites do corpo, abandonam o conhecimento interior.  Preservar a sexualidade, desenvolvê-la é preservar a completitude da vida: alimentá-la, usufruir não como um alívio de tensão, não como órgão de função mecânica. O gozo não se concretiza apenas nas fezes se compararmos com alívio premente. O gozo sexual transforma o homem pois atravessa a inteligência e aguça a sensibilidade. O sexo não é paliativo como o álcool, o cigarro, mas parte de enriquecimento (o requinte) do ser humano; trabalhar com a inteligência – o pensar – então o homem se conhecendo, sentindo, cresce.

O homem do campo, o operário comum não desenvolve este tipo de libido, não da mesma forma. Está bloqueado pelas necessidades primárias da sobrevivência. Não possui conhecimento do seu corpo e nem o explora. A inteligência fica bloqueada no trabalho mecânico do não pensar, não agir além do limite, apenas aceitar.  Trabalham surdos as próprias vozes e preocupados com o barulho do mundo, dos outros. Se estamos surdos ao olfato, ao gosto, a nossa voz, perdemos, também, a sexualidade.  Surda está a nossa sexualidade e estamos assim apenas metade de nós mesmos. O sexo se esconde dele mesmo, assim como olhamos sem ver, choramos sem sentir, comemos sem fome nem gosto falamos por falar, vivemos por viver, fazemos sexo por fazer.

O ócio, o não fazer nada com as mãos e com o corpo, a despreocupação diante do trabalho-fazer, olho-fazer pode ser parceria com o prazer, com o sexo, somente, quando a inteligência aflorou e desenvolveu no homem o sensitivo: sentir, ter percepção completa. O sexo pensa o sexo, o olhar pensa o ver, o nariz pensa o cheiro, a boca pensa o gosto, o corpo pensa o corpo, o homem se pensa. Pois que o ócio pode ser ópio, mas também a contemplação, a meditação. Seres especiais convivem e sabem do ócio, do corpo e da alma. A sensibilidade precisa ser aguçada e trabalhada em parceria com a inteligência.

O ofício, a ação mesma do homem, pode ser apenas a fuga. A igualdade entre operário e patrão, mas o excesso de trabalho termina no poder. O que é externo ao ser é pernicioso. Este poder pode ser entendido como o resultado do trabalho. Não o poder sobre si próprio, sua vontade: é um poder vazio, projeção dos outros. Assim, o excesso de trabalho, a contínua agitação física é a fuga. As grandes cidades e suas parafernálias são as caixas dos desesperados, solitários operadores: solitários porque esquecidos deles mesmos. Agitam-se meio as massas e jogam-se uns contra os outros nos brinquedos do barulho; desconhecem suas interioridades, limites. Os que possuem a sensibilidade criadora de se fazer homem encontram o prazer. Possuem o conhecimento essencial para a explosão da sexualidade e longevidade. O homem do campo, reconfortado com a natureza do mundo, com o ar, com o verde, e com outros animais encontra diferente paz, diferente prazer… (Pretendo ampliar e explicar um pouco mais, depois te encaminho o definitivo.) Trabalham a sobrevivência, apenas sobrevivência, esquecem a sexualidade. Abafam inquietudes interiores no trabalho físico, exaustivo. Abafam a própria potencialidade da inteligência. Não mais pensam, apenas são conduzidos por necessidades evidentes.

O sexo banalizou-se como o consumo de drogas: fuga. Descarregam a libido por outros meios, a cada um, uma saída. O sexo banalizou-se através do olhar e das urgências, sem tempo, sem hora, sem vagar não pode haver sexo.

Barbarela, a máquina de fazer amor que pode ser a televisão, o computador, o cinema, o livro, os jornais, as ruas, mas nunca duas pessoas. Solitários, esquecidos do sexo, da cama e dos murmúrios do orgasmo afundam: morrem em vida. Elizabeth M.B. Mattos.  Torres, 24/10/1997 19:03:17.

 

P.S. Os homens esquecem a medicina do sexo. Fugindo do prazer, fugimos da própria vida, fugimos do nosso corpo e de nós mesmos; e nós nos entregamos à doença da sobrevivência. Estar vivo não é evidente, nem igual. A energia corre nas veias. Como são eles, estes outros? Como são eles?

 

Enquanto procuro um texto perdido nesta desordem do meu computador, encontro a velha carta para Paulo Hecker Filho. E já outros textos das cartas/ nas cartas trocadas. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres: tentando organizar o passado dos escritos.

 

 

 

2019-06-23 12.50.57

 

 

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