Linha de Sombra

A liberdade não está ao alcance, ao alcance das mãos, da cabeça, mas solta no íntimo da alma. Não domino os sentimentos que me afastam, ou aproximam desta ou daquela pessoa… A natureza de ser / ter / estar se altera no cansaço, no corpo físico, e por dentro.  Escrever sobre eu mesma, ou como sinto, enxergo ou me vejo, formatar um dia em palavras, difícil, abstrato embora descritivo, e definitivo: um exercício. Volto a um velho texto de um velho livro: “Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não – humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder – se – ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta … até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório. ” (p.35) Davis Cooper, – Psiquiatria e Antipsiquiatria, – Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo 1967

 

Domingo

Acordei cedo. Acordo cedo porque durmo muito cedo. E mesmo se não durmo imediatamente, eu me enfio na cama para que a noite passe mais depressa. Não penso em preencher o tempo escrevendo, lendo, pensando, ou vendo um filme. Acabo não vendo filmes nem televisão. Tenho sempre a preocupação de fazer o que preciso fazer (limpar / cozinha / caminhar / lavar e pendurar a roupa, depois passar), e também a leitura, o vício, ou escrever. Tem um ANTES tão grande que só ligo a televisão se estou com sono. Ouço notícias aterradoras e mais uns minutos desligo, não penso nada, e não faço nada. As notícias do que acontece assombram…

Antes de pensar em alguma coisa eu me enrolo numa manta qualquer e desço para o gramado com a Ônix, – ela é comportada e companheira, se não levo é / acho mesmo judiação não pensar nela, penso.

A ideia de escrever sobre um dia chegou enquanto lavava a louça, depois do café, depois de fazer mil pequenas coisas…

Depois, mas vou contar.
A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que nosso coração almeja são longas. ”

 

Março 2004 – Páscoa

Balonismo depois do furacão Catarina que assustou, assombrou Torres. Fui demitida da galeria Garagem de Arte no dia primeiro de abril, e não era uma piada. Engasgada gelada assustada avisei filhos, irmãs, – faço o registro do medo, mas logo pensei: novos tempos novos rumos. De certa forma atordoada assustada, mas livre (havia escravidão peculiar a servir/ter chefe e metas a cumprir) então, estava, desavisadamente, aliviada, e sem rumo. Agora conto a história de ser marchand em mar aberto … sigo o rastro deste recomeçar, ainda outra vez, tantas vezes recomecei. Sair das cores. Da magia, da vida de amigos pintores, colecionadores, artistas …  Por algum tempo toquei na luz.

“E o tempo também caminha – até que se percebe logo adiante uma linha de sombra avisando – nos que também a região da mocidade deverá ser deixada para trás”.

Voltei para casa, para dentro de mim mesma, desertei da vida porto-alegrense, e me perguntei, e agora? Dar as costas para aquele mundo foi um ritual de passagem. Conheci o paraíso de ser eu mesma depender apenas de mim, … e cheguei ao inferno do medo.

“ Mas eu não senti receio. Eu estava suficientemente familiarizado com o Arquipélago por aquela época. Paciência extrema e extremo cuidado me levariam através desta região de terras quebradas, de ares tênues e águas mortas até onde eu sentiria enfim meu comando balouçar nas grandes vagas e inclinar-me com o grandioso sopro dos ventos regulares, que dariam a ele a sensação de uma vida mais ampla, mais intensa. A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que o nosso coração almeja são longas. Mas esta estrada meu olho mental podia ver num mapa, profissionalmente, com todas as suas complicações e dificuldades, mas, ainda assim, bastante simples de certa forma. Ou se é um marujo ou não se é. E eu não tinha dúvidas de que era um deles. ”

Como eu me senti quando cheguei a primeira vez na galeria? Não sei dizer, mas Joseph Conrad soube explicar:

[…] “, eu sabia que, como algumas raras mulheres, este navio era uma daquelas criatura cuja mera existência é suficiente para provocar um prazer desinteressado. Sente-se que é ótimo estar no mundo que ela habita.  […]. Meia hora mais tarde, pondo meus pés em seu convés pela primeira vez, fui possuído pela sensação de profunda satisfação física. Nada poderia igualar a plenitude daquele momento, a integridade fantástica daquela experiência emocional que chegou a mim sem preliminar fadiga e desencantos de uma carreira obscura. ”

Eu me desligara da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) com a ideia de me aventurar em Belo Horizonte, pois é, uma vez tive tal enlouquecida e amorosa ideia de ser mineira, e comecei a tecer planos que se desfizeram diante da morte de Sonia Maria (minha querida, preciosa amiga mineira). Foi tão estranho e doloroso! Tudo se enrolou numa rede de fantasia, e de repente, não era mais nada para ser daquele jeito. A morte é definitiva; sinal de limite. Estranho! E minha vida tem estes sinaleiros, anjos, ou faróis a mostrar o caminho…  Não, este lugar não te pertence, nesta ilha não podes descer, este homem não podes ter. Este jardim não é teu. Foi sentimento, encantamento e magia. A galeria Garagem de Arte. Lentamente o amor cobriu o espaço inteiro, e eu estava viva como que hipnotizada pelas esculturas. O mesmo sentimento de pertencimento que senti com os alunos do Colégio da Providência no Rio de Janeiro. Um passo e já fazes parte. O encanto da chegada, e depois a demissão. Posso lembrar dos dois dias. Carteira de Trabalho assinada e aquele podes ir emboraHoje, agora. E a vida tomou outro rumo. O imprevisto. O gozado e o estranho…  Sabia que alguma coisa tinha mudado, e tinha a tal moça – secretária rondando, uma cilada? Talvez. Então não foi surpresa, foi previsível, mas assim mesmo fiquei em choque. Sair e dar as costas, ir embora. Ao manejar o veleiro de Conrad e levantar a cabeça, – faço uma leve analogia com o curso da vida em determinado momento (assumir a galeria, e ser demitida de supetão): como estar em grande tempestade, mas não se pode desistir, ao contrário, é preciso ficar mais forte, mais destro, mais corajoso. Assumir e agarrar a vida. Eu nunca pediria demissão, não ia fazer isso comigo. Eu já tinha abandonado o meu concurso do magistério no Estado num gesto de rebeldia e prepotência. Eu já tinha sido gentil e tolerante. Eu já tinha usado da humildade. Eu já tinha sido Beth, agora eu era Elizabeth, não contestei naquele momento, contestaria mais tarde, no momento certo. Contenção de despesas foi a boa explicação.

Eu era ainda suficientemente jovem, estava ainda demais deste lado da linha de sombra, para não ficar surpreso, indignado com tais coisas. ”

Eu teria que recomeçar. Retomar. Eu ia começar outra vida, como Isabel ou como Liza. Tinha sido contratada no dia 10 de julho de 2001. Saída efetiva na Carteira foi no dia 5 de abril de 2004.

Havia no ambiente uma estranha tensão que começou a me deixar incomodado. Tentei reagir contra esta vaga sensação. […]

No rosto daquele homem que eu julguei ser muitos anos mais velho que eu, tornei – me consciente daquilo que já havia deixado para trás — minha juventude.  E isso isto era realmente um parco consolo. A juventude é uma coisa maravilhosa, um poder incrível — enquanto não se começa a pensar a respeito. Eu senti que estava começando a ficar consciente de mim mesmo. Quase contra a minha vontade assumi uma melancólica seriedade. ”

Reencontro com Joseph Conrad – A Linha de Sombra: (The Shadow Line) – Uma Confissão (155 páginaspode ser relido, repensado)

Encontro o passado enquanto procuro acerto. O computador é o armário mais abarrotado e surpreendente que jamais tive… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

Última obra-prima escrita por Joseph Conrad, A Linha de Sombra (1971) marca o limite – tão indefinível e incompreensível, quanto inquietante e doloroso – que num determinado momento da vida configura, de modo irrevogável, o fim da juventude.

Duva Tavares Sejas bem vinda, velhice. Que venhas leve, que me sejas leve e dócil; e o computador, o armário-guarda-roupa soft e hard ware mais bagunçado da minha vida

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